Eu tenho pensado sobre piloto automático

(via Pinterest)

Semana passada eu saí com duas das minhas amigas mais antigas e acho curioso notar que, toda vez que a gente se encontra, sempre rolam umas reflexões meio aleatórias, mas super importantes pra fazer a gente pensar uma na outra de modos diferentes e até pra servir de inspiração pra viver as coisas das nossas vidas de uma forma mais legal.

Nós nos conhecemos há mais de 10 anos, temos rotinas bem diferentes e demora semanas ou até meses (na verdade, mais meses) até que a gente consiga se ver de novo. Mas é certeza que cada novo date, cada troca de experiência não só mostra como nós amadurecemos através dos anos, mas faz a gente voltar pra casa com aquela pulguinha atrás da orelha em relação a alguma atitude que a gente tá tomando, repensar hábitos e dar um gás pra seguir atrás dos objetivos.

Toda essa introdução foi pra dizer que essa última vez que a gente saiu pra jantar eu compartilhei com elas como tava feliz com o fato de vir conseguindo cumprir as metas que eu coloquei pra mim lá no começo do ano: começar aulas de yoga, fazer uma tatuagem, começar a pós-graduação e mais algumas outras. Mas foi aí que, quando eu já tava voltando pra casa, me lembrei que tinham umas metas na minha lista que eu simplesmente não conseguia arranjar tempo pra cumprir (uma delas, inclusive, era manter esse maravilhoso blog).

Daí que no caminho de volta eu repassei toda a minha rotina, pensei no que eu costumo fazer durante os dias da minha semana e não entendi bem pra onde estavam indo as horas que eu gostaria de reservar pra dar continuidade aos projetos que são importantes pra mim.

Resolvi escrever esse post não pra falar sobre produtividade como pode ter parecido nesse último parágrafo. Também não é sobre me dar um sermão ou nada do tipo. Na verdade, esse é um tema que eu teria abordado lá no meu diário, porque sinto que o que eu quero dizer é pessoal demais e talvez não interesse a ninguém. No fim das contas, resolvi escrever sobre isso aqui porque talvez alguém em algum lugar leia e se identifique com o que eu quero dizer.

E o que eu quero dizer é que talvez (só talvez) a gente viva inconscientemente num piloto automático muito tóxico. Talvez isso não seja surpresa pra você, mas essa reflexão ganhou mais peso pra mim quando eu pensei sobre isso através dos anos: pensei em todos os projetos que eu postergo por algum motivo e pensei como minha vida seria daqui uns anos não tendo realizado as coisas que são importantes pra mim. Do alto de todos os meus privilégios, eu vi meus dias sendo preenchidos apenas com “o pacote básico” de atividades, sendo que eu tenho tempo sim pra poder fazer mais do que seria necessário.

E, vamos ser sinceros, se eu tenho tempo no meu dia pra fazer mais do que o essencial (a.k.a. as demandas das outras pessoas), porque não fazer?

Parece uma coisa simples, mas, vendo como esse mês de agosto passou rápido, eu vi como era confortável pra mim fazer o básico e preencher o restante do dia com coisas que não faziam sentido como um autêntico projeto futuro e que me trouxesse muitas coisas boas a longo prazo. Me pareceu que os dias passavam rápido demais com aquela sensação ruim de que o tempo passava e eu só tava lá assistindo.

A verdade é que eu queria ter dito pras minhas amigas naquele dia que eu também tava tendo sucesso nesses projetos, não só em coisas pontuais que aconteceram comigo. E a questão não é desvalorizar todas aquelas metas que eu já consegui cumprir, mas é parar pra observar aquelas que eu tô adiando e me perguntar “porque que eu tô fazendo isso?” e “o que eu posso fazer pra tirar elas do papel?”.

Claro que muitas coisas acontecem na nossa vida que precisam que a gente fique mais quietinho, absorvendo nossas decisões e deixando que as coisas fluam naturalmente. Mas quando a gente nota que o piloto automático tá assumindo o controle, é hora de parar, refletir e assumir o controle de novo.

Ano passado eu escrevi sobre autocuidado num post aqui do blog. Eu não tinha noção disso ainda, mas assumir o controle do que a gente tá fazendo com a nossa vida também é uma forma de se cuidar. Eu venho aprendendo (meio que aos trancos e barrancos) que autocuidado também é sobre fazer coisas por nós que a gente não gosta muito, coisas difíceis e às vezes até doloridas, mas que, no final, podem nos mudar pra melhor. E nesses quatro meses que faltam pro final do ano, achei que podia ser uma coisa legal pra se observar.

Lembrando que a intenção nunca é ficar ansioso ou paranoico sobre o rumo das coisas que a gente não pode mudar, mas fazer o possível pra melhorar aquelas que a gente pode.

Peço desculpas se nada fez muito sentido nesse post, a intenção era tirar da minha cabeça essas ideias todas, mesmo que a linha de raciocínio não tenha sido das melhores. Eu apenas senti que precisava escrever (falar tudo pra mim mesma), mas quem sabe não era isso que você tava precisando ler?

Até a próxima!

Resenha Antioxidante Hidratante Sallve

A comunidade de amantes do skincare ficou abalada no final do primeiro semestre pelo lançamento da tão esperada Sallve, uma marca moderníssima de cuidados com a pele co-criada pela rainha da internet, Julia Petit. A empresa, que não esconde ser nativa digital, tem as redes sociais como principal ferramenta de pesquisa pra entender os desejos do seu público-alvo e, a partir disso, formular produtos que sejam exatamente aquilo que ele procura. Daí vem todo o acerto da Sallve ao apostar no lançamento de um carro-chefe, o tão comentado Antioxidante Hidratante que se gaba de ter mil e um benefícios, atraindo todos os holofotes e olhares internet a fora.

Inclusive o daquela que vos escreve. Já faz uns bons três anos que eu venho gostando de incluir um produto a mais na minha rotina de skincare entre os passos de lavar e aplicar hidratante. Primeiro eu comecei pela Vitamina C da Payot (comprei duas vezes), bem baratinha, mas que melhorou horrores a minha pele, e depois fui pro Minéral 89 da Vichy, outra vibe de produto, menos oleosinho, mas que também amei usar. Foi quando esse último acabou que eu fiquei sabendo que a Sallve tava pra lançar o tal do Antioxidante Hidratante, depois de meses e meses de mistério.

Não vou mentir, fiquei com o pé atrás, afinal é uma marca nova, nada se tinha falado sobre o produto ainda e eu não sou muito daquelas que dá tiro no escuro só pra seguir a modinha. O fato de ser um cosmético (e não um dermocosmético, que tem muito mais estudo e tecnologia por trás) também me incomodava um pouco, mas como eu usei por muito tempo a Vitamina C da Payot e adorava, não era exatamente uma desculpa pra mim.

Foi aí que eu vi uma entrevista da Julia para o canal da Jana Bonita de Pele em que ela dizia mais ou menos o seguinte: “Se não fosse pra lançar no mercado alguma coisa inédita e que realmente funcionasse, eu nem lançaria”. E foi nesse momento que eu me convenci a dar uma chance ao dito cujo.

Eis que fui lá, comprei o produto logo no dia do lançamento e, nesse post, vou contar como foi a minha experiência usando ele diariamente por um mês. Já deixo avisado que o post deve ficar um pouco longo, mas, já que a minha intenção aqui é falar absolutamente tudo o que eu achei do produto, não tem como não me aprofundar pra dizer se ele vale a pena ou não comparado a alguns similares que já usei e que fazem o mesmo trabalho.

P.S.1: As minhas impressões são totalmente baseadas na minha experiência, não sou dermatologista nem expert no assunto. Se você tem questões de pele que precisam de mais atenção, é sempre bom consultar um profissional antes de usar qualquer coisa.

P.S.2: Sempre bom lembrar que tenho pele oleosa, característica que se acentua no calor. Atualmente tenho acne hormonal por conta de ovários policísticos, mas devido ao tratamento fico com a pele ressecada bem facilmente.

Dito tudo isso, vamos à resenha!

Sobre o produto e o que ele promete

De acordo com o site da Sallve, o Antioxidante Hidratante é um produto hipoalergênico, testado dermatologicamente e oftalmologicamente, não testado em animais e livre de ingredientes proibidões. A marca sugere que ele seja usado em todo o rosto, pescoço, colo e área dos olhos e, segundo ela, três ou quatro gotinhas de produto são suficientes pra preencher toda essa área.

Ele tem 35g, um tamanho que eu achei muito legal, e custa R$ 89,90, o faz com que ele tenha um ótimo custo-benefício. Logo na pré-venda, eu vi muitas pessoas no Insta da Sallve perguntando quanto tempo de uso rende uma bisnaguinha dessas e eles falaram que durava mais ou menos um mês. Achei a resposta meio ilógica levando em consideração a quantidade de produto que eles recomendam que seja aplicado e a quantidade que vem na embalagem. Já usei muitos produtos com embalagem de 30g e, aplicando até mais do que eles recomendam, eles duram fácil 3 meses se você usa uma vez por dia. Eu venho usando só pela manhã e não chegou nem a ficar pela metade ainda.

Sobre os ingredientes do Antioxidante Hidratante, a Sallve diz:

Um produto que é muitos. Antioxida enquanto hidrata. É sérum e gel. Cuida da área dos olhos e do rosto todo. Sua fórmula única combina o Ácido Hialurônico a 5 antioxidantes preciosos: Nano Vitamina C a 10%Vitamina E, Resveratrol, Cafeína e Niacinamida. E, graças à nanotecnologia, os principais ingredientes estão revestidos e prontos pra entregar seu melhor, agindo no lugar certinho da pele da forma mais segura. Ele hidrata controlando a oleosidade, minimiza poros dilatados, previne linhas finas e sinais do tempo, uniformiza o tom e recarrega as baterias da pele, devolvendo a luminosidade natural e suavizando o inchaço matinal e as olheiras de cansaço. Pode usar todos os dias, pela manhã e à noite.

Como você pode ver, o Antioxidante Hidratante não nega prometer deus-e-o-mundo né? Achei a composição muito boa, levando em consideração o pouco que eu entendo. A Nano Vitamina C a 10% chama a atenção pela porcentagem e também por ser encapsulada, uma forma de armazenamento que faz com que ela penetre mais fundo as camadas da pele e impede que ela oxide mais rapidamente. O Ácido Hialurônico é um componente que tá muito em alta ultimamente e, pelo tempo em que eu usei o Minéral 89 (que é composto principalmente por esse ácido) notei bastante diferença na minha pele.

A Vitamina E e Cafeína terminam sendo ótimos bônus, também o Resveratrol e a Niacinamida, que sempre estão presentes nos cremes manipulados que a minha dermato receita. E se a minha dermato receita esses componentes, eu confio de olhos fechados.

Sobre a embalagem

Antes de tudo eu preciso de algumas linhas para declarar meu amor absoluto por essa embalagem. Amei o formato em bisnaguinha, super tranquila de transportar e ainda mais legal pra aplicar o produto. É um modelo extremamente prático de usar, sem falar que é uma gracinha.

Estética do produto à parte, achei muito legal que a embalagem do Antioxidante Hidratante tem os selos I’m Green (que quer dizer que a embalagem foi feita com Polietileno Verde) e Eu Reciclo, que é um programa de logística reversa em que a empresa se compromete a reciclar uma porcentagem das embalagens que produz.

É interessante notar que, alguns anos atrás, a maioria das pessoas nem iria questionar o posicionamento da empresa sobre causas ambientais, reciclagem de embalagens e logística reversa. A Sallve, como boa nativa digital, sabe que seu público não é mais alheio a esse tipo de discussão e fez questão de ter a resposta pronta na ponta da língua toda vez que surgisse um comentário do tipo “poxa, embalagem de plástico?”. São detalhes que contam (e muito) pra construção da identidade da marca e pra consolidação dela no mercado futuramente.

Sobre textura, aplicação e fragrância

A Julia contou que a textura de sérum foi uma das mais citadas quando a marca procurou saber qual era a preferência do público. Foram muitos testes até que eles chegassem nessa textura sérum-gel que, pra mim, fica no meio do caminho entre um sérum tradicional (como o Minéral 89, pra citar um que eu conheço bem) e um hidratante levinho, pra pele oleosa.

Pessoalmente, essa não é uma textura que eu goste tanto, eu sou bem mais fã de produtos densos e que demorem a ser absorvidos pela pele. O Antioxidante Hidratante é justamente o contrário. Nos dias em que a minha pele tava mais ressecada, ele foi absorvido quase que imediatamente e era até complicado espalhar por todo o rosto, mesmo que eu tivesse usado as “três ou quatro gotinhas” recomendadas pela marca.

Minha forma preferida de aplica-lo foi lavar e secar o rosto com uma toalha e, imediatamente depois, aplicar uma gotinha dele em cada ponto do rosto (bochechas, queixo, nariz e testa) e espalhar bem. Quando o rosto ainda está meio úmido ele desliza mil vezes melhor e dá uma sensação muito gostosa na pele, até um pouco geladinha dependendo do local onde você deixa guardado.

Gostei também que ele é um produto que não tem uma fragrância forte. Ele tem um cheiro que não consegui definir e que some da pele poucos segundos depois de aplicado.

Sobre os resultados

Logo depois que você aplica o Antioxidante Hidratante, fica uma sensação meio “colentinha” na pele por conta do Ácido Hialurônico, mas nada que incomode. A impressão que dá é que você não passou nada, mas (como eu tentei mostrar na foto acima) dá pra notar um leve viço de hidratação. Ao contrário do que a marca fala, não achei que ele minimiza os poros; notei que os poros (principalmente os que tenho perto do nariz, que são mais dilatados) ficam levemente menos visíveis, mas isso acontecia nos períodos em que minha alimentação estava boa, o que é uma coisa que muda a pele, inevitavelmente.

Já o controle da oleosidade é uma coisa que dá pra notar logo de primeira; por uns dois ou três dias em que eu não precisei sair, testei lavar o rosto e só aplicar ele em seguida, sem protetor solar, e o efeito foi bem legal, deu pra ver que ele deixa a pele bonita, viçosa, mas com a oleosidade controlada.

Quanto à prevenção de linhas finas e sinais do tempo, só o uso continuo por muitos anos que pode dizer. O fato é que prevenção é fundamental e substâncias como a Vitamina C, por exemplo, são muito boas nesse aspecto, sem falar que ajuda, e muito, na hidratação e uniformização da pele.

Para ser sincera, não notei melhora na aparência de manchinhas por enquanto (tenho várias por conta de acne hormonal), mas talvez mais um ou dois meses de uso possam ajudar.

Também não notei aparecimento de espinhas como algumas pessoas relataram, todas as que tive nesse período de uso apareceram em áreas com tendência à acne hormonal e tenho certeza que não foi por causa do produto.

O veredito

No fim das contas, eu gostei muito do Antioxidante Hidratante, o resultado na minha pele foi muito bom. Mesmo que eu acredite que os maiores resultados eu vou ver a longo prazo, acho que as primeiras impressões dele são bem positivas, dá pra sentir a pele mais macia e iluminada logo na primeira semana de uso, principalmente na área dos olhos. Ele é leve, gostosinho de passar e some na pele depois de um segundos.

Se você tem pele oleosa, não quer perder tempo com skincare, quer só usar algo que suma logo na pele pra depois vir com a maquiagem, o Antioxidante Hidratante é pra você. Se você também é tipo bem prático que não tem paciência de usar mil produtos na cara, mas que quer ter certeza de estar usando algo que tenha uma boa composição sem gastar rios de dinheiro, ele também pode ser um ótimo aliado.

Pessoalmente, não acho que ele seja um produto pra ser usado sozinho. Ele quebra um galho enorme nos dias em que eu não tenho paciência de usar nada no rosto, mas pra eu ter o resultado de hidratação que eu gosto, preciso aplicar um hidratante um pouco mais consistente depois. Isso porque, na minha rotina, ele não substitui um hidratante mais grossinho, mas sim funciona como um extra, não por não ser eficiente, mas porque eu gosto de usar um produto que deslize mais na pele, que dê essa sensação visual de pele brilhosa e hidratada.

Claro que isso é uma opinião 100% pessoal. Ele hidrata sim, mas, como todo sérum mais fininho não dá aquela impressão visual de pele hidratada, com glow absurdo. Produtos mais “oleosos” num geral dão essa impressão, sérum mais aquosos fazem o trabalho de dentro pra fora e logo somem da pele.

Sabendo disso, é legal você entender o que você quer pra sua rotina de skincare. Eu realmente acredito que o Antioxidante Hidratante pode substituir o hidratante de alguém que não gosta de passar muitos produtos, porém também acho ele é perfeito pra vir antes de um produto mais consistente que hidrate “visualmente” mais.

Mas independente disso, quero dizer que ele é uma opção muito válida. Não chega a ser um dermocosmético como o Minéral 89 da Vichy, mas também ganha de lavada em composição e tecnologia da Vitamina C da Payot, por exemplo. Eu super compraria de novo e garanto que, se comprar mesmo, eu volto aqui pra falar minhas impressões a longo prazo do produto.

Então é isso! Espero que a resenha tenha sido útil e ajude de alguma forma você que tá aí curioso imaginando se investe ou não investe no tão famoso sérum da Sallve. Me conta nos comentários se você já testou ou gostaria de testar esse produto. Até a próxima!

5 livros que li este ano + algumas leituras extras

Assim como eu falei no post anterior a esse, ler pelo menos uma hora por dia é uma das minhas maiores metas pra 2019. Confesso que não tá sendo tão fácil quanto eu imaginei que seria. Junho, por exemplo, foi um mês absolutamente fora do comum. Além de ter trabalhado e estudado bastante, fiz muitas viagens e elas acabaram me dispersando do objetivo de enfiar a cara nos livros e dar menos espaço pras redes sociais no dia a dia.

Mas apesar do meu ritmo de leitura estar bem longe do que eu considero que seja o ideal pra mim, ele tem sido constante. Eu não tenho dado muito espaço entre a leitura de um capítulo e outro e, no fim das contas, acho que isso é o que mais importa.

É verdade também que eu preciso me dar um desconto: estou lendo muitos autores novos, alguns que tem um estilo completamente diferente do que eu tô acostumada, então é legal levar isso em consideração né?

Nesse post, eu venho contar como foram as leituras que eu fiz esse ano, sendo todas elas de livros que eu ganhei/comprei em 2019 mesmo, já que, ano passado, eu consegui dar cabo de todos livros da estante que ainda não tinham sido lidos. Ao todo foram cinco leituras inéditas, um livro de pequenas histórias e uma releitura.

1984 – George Orwell

Em seu último romance, George Orwell criou Winston, que vive aprisionado em uma sociedade completamente dominada pelo Estado. Essa submissão ao poder, é relatada, inclusive, na rotina do personagem, que trabalha com a falsificação de registros históricos a fim de satisfazer os interesses presentes. Winston, contudo, não aceita bem essa realidade, que se disfarça de democracia, e vive questionando a opressão que o partido e o Grande Irmão exercem sob a sociedade.

Comecei o ano com meu primeiro George Orwell da vida e ainda tenho minhas dúvidas se essa foi uma boa escolha. Não que não tenha sido um bom livro, muito pelo contrário, a história é de tirar o fôlego e eu adorei o jeito como o autor usa as palavras e desenvolve suas ideais na história sem muita firula. Mas não dá pra negar o balde de água fria que o livro dá em você ao longo da trama. Foi minha primeira distopia “adulta”, foi bizarro e me deixou muito mal, com uma ressaca literária como nunca tinha acontecido. Mas, apesar do soco no estômago, só me deixou com mais vontade de ler outras distopias, que é um gênero difícil de ser lido, mas extremamente necessário.

“liberdade é a liberdade de dizer que dois mais dois são quatro. se isso for admitido, tudo o mais é decorrência”

Mrs. Dalloway – Virginia Woolf

Considerado uma obra-prima, Mrs. Dalloway conta uma história das mais simples, que poderia ser resumida de forma banal na expressão “um dia na vida de uma mulher”. Através da percepção do que se passa em torno e dentro de Clarissa Dalloway, Virginia Woolf escreveu, na verdade, a história da crise de um indivíduo, de uma classe, de uma sociedade e a do próprio romance.

Virginia Woolf acabou comigo em Mrs. Dalloway quando partiu de uma premissa absolutamente banal para fazer um estudo profundo e muito delicado da alma humana, do que somos, do que deixamos transparecer e do que guardamos pra nós mesmos. Sendo não apenas meu primeiro livro da autora como também o primeiro escrito através do fluxo de consciência (obrigada Lavoura arcaica e On the road por me prepararem pra essa leitura!) foi um tanto complicado engatar na leitura sem desistir, precisei de muita paciência e concentração. Felizmente, consegui terminar a leitura querendo ler mais, muito mais sobre Clarissa Dalloway e Septimus Warren Smith, esses personagens extremamente complexos e adoráveis. Adorei o tom contemplativo da história que parecia me pegar pela mão pra sentar junto num parque e observar o que acontecia em volta, com muita calma.

“tinha uma sensação permanente, olhando os táxis, de estar longe, muito longe, bem longe no mar e sozinha; sempre era invadida por essa sensação de que era muito, muito perigoso viver, ainda que por um dia”

A verdadeira Jane Austen – Paula Byrne

A biógrafa Paula Byrne parte de objetos cotidianos – um xale, uma carruagem, um corte de renda, uma caixa de instrumentos de escrita – para desvendar a vida da amada romancista. A mulher que daí emerge é muito mais forte e vivaz, mais consciente política e socialmente, e em geral mais moderna do que a imagem convencional da “querida tia Jane”. O texto explora as forças que moldaram a existência e a obra de Jane Austen, sua longa luta para se tornar uma autora publicada e a exibe às luzes do século XXI.

Quando comprei esse livro no meu aniversário do ano passado eu já sabia que ele, provavelmente, seria o meu maior desafio de 2019. Não por ser enorme (e é mesmo), mas porque essa é uma biografia, gênero que eu não tenho nenhum costume de ler. Mas como eu sempre tive muita vontade de ler uma biografia da Jane, por ser minha autora preferida, decidi superar o medo depois de tanto passar e ver esse livro na vitrine. Pra minha surpresa, eu não pude escolher uma obra melhor para começar pelo universo das biografias já que a autora conta a história da Jane da forma menos linear e tradicional possível. Foi impossível não me apaixonar ou me deixar inspirar pela pessoa que foi Jane Austen depois dessa biografia.

O processo – Franz Kafka

Publicado postumamente, O processo conta a história do bancário Joseph K., que, por razões que nunca chega a descobrir, é preso, julgado e condenado por um misterioso tribunal. Nesse romance, a ambiguidade onírica do peculiar universo kafkiano e as situações do absurdo existencial chegam a limites nunca suspeitados. A ação desenvolve-se num clima de sonhos e pesadelos misturados a fotos corriqueiros, que compõem uma trama em que a irrealidade beira a loucura.

O processo mais parece um sonho, onde você cai em situações cada vez mais absurdas e não faz a mínima ideia de como vai terminar toda a confusão. Ao contrário de A metamorfose, este não é um livro nem um pouco redondinho: ele tem vários capítulos inacabados que foram, postumamente, agrupados numa ordem duvidosa. É uma leitura bem difícil, completamente bizarra e que pode suscitar dezenas de interpretações. Pra mim, O processo fala sobre a paranoia humana e a que ponto nós podemos leva-la até que ela se torne uma realidade. Queria ter me identificado menos com Josef K. nesse ponto.

“o tribunal não quer nada de ti. ele te recebe quando tu vens e se despede quando tu vais”

Madame Bovary – Gustave Flaubert

Emma é uma mulher sonhadora, uma pequeno-bur­guesa criada no campo que aprendeu a ver a vida através da literatura senti­men­tal. Bonita e requintada para os padrões provincianos, casa-se com Charles Bovary, um médico interiorano tão apaixonado pela esposa quanto entediante. Nem mesmo o nascimento de uma filha dá alegria ao indissolúvel casamento no qual a protagonista sente-se presa. Como Dom Quixote, que leu romances de cavalaria demais e pôs-se a guerrear com moinhos, ela tenta dar vida e paixão à sua existência, escolha que levará a uma sucessão de erros e a uma descida ao inferno.

Minha curiosidade em ler Madame Bovary era imensa justamente porque ela é considerada a obra que deu origem ao realismo, meu movimento literário preferido, onde estão incluídos autores como Machado e Eça de Queiroz. Eis que Flaubert dá um belíssimo de um tapa na cara de todos os leitores com esse livro maravilhoso. Eu ainda tenho minhas ressalvas sobre como autores clássicos retratam personagens femininas adúlteras, mas é inegável o quão primoroso e revolucionário é Madame Bovary. Um livro escrito com muita atenção às palavras e aos personagens, tipos sociais complexos que poderiam perfeitamente habitar a sociedade atual. Em todas as suas falhas, Emma Bovary conseguiu ser uma das protagonistas mais humanas que eu já conheci.

“no fundo de sua alma, no entanto, ela esperava um acontecimento. não sabia qual seria aquele acaso, o vento que o arrastaria até ela. mas, todas as manhãs, ao despertar, ela o esperava para o mesmo dia”

  • Amor e amizade & outras histórias – Jane Austen

E como não poderia deixar de ser, continuo na saga de ler absolutamente tudo o que Jane Austen deixou para a posteridade (seria pedir demais alguém encontrar um romance completo dela perdido por aí?). Amor e amizade é um livro tão fininho que foi ele o escolhido pra ir numa das viagens que eu fez mês passado e ele foi o passatempo perfeito das horas de voo. Depois de ter lido a biografia da autora, descobri que as histórias desse livro fizeram parte da Juvenília da Jane, aquelas histórias que ela escrevia ainda adolescente pra divertir a família em saraus e reuniões. Eu quase podia imaginar ela com os escritos na mão, andando pela sala, lendo pros seus familiares que não paravam de rir, assim como aconteceu comigo. Mesmo se tratando de histórias simples, dá pra sentir aquele dedinho de genialidade e ironia com que ela trataria a sociedade já despontando.

  • As vantagens de ser invisível – Stephen Chbosky

Esse é um daqueles livros que eu li na minha adolescência, mas que ainda resistiram na estante mesmo depois de muitos desapegos. E com o feriado da Páscoa tava meio entediante e tava na necessidade de dar um tempo no Kafka, aproveitei a oportunidade para reler e saber se eu continuava com ele ou passava pra frente. E não é que eu continuei apaixonada pela história? 6 anos depois, já formada, um bocado mais de experiência de vida e eu ainda achei uma das coisas mais sensíveis que eu já li sobre juventude. Então decidi ficar com ele por mais alguns anos até que a história já não faça mais tanto sentido pra mim.

E é isso! Mas e você? Quais foram os livros que você já leu esse ano? Me conta nos comentários. Até a próxima!