‘Annie Hall’ (1977)

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Traduzir o filme ‘Annie Hall’, do diretor Woody Allen, como ‘Noivo Neurótico, Noiva Nervosa’ poderia até ser chamado de heresia em diversas culturas. Estou bem certa disso. Woody Allen ficaria horrorizado se soubesse. Talvez até saiba. Reduzir esse filme a uma comédia romântica clichê de Sessão da Tarde (porque é isso que o título faz), é um erro absurdo. As escolhas de direção, as atuações e o roteiro certamente não são de um filme qualquer. Sem ‘Annie Hall’ as comédias românticas atuais não seriam a mesmas.

Quem conta a história é Alvy Singer (Woody Allen), um humorista judeu e divorciado que faz análise há quinze anos. Ele conhece Annie Hall (Diane Keaton), uma aspirante a cantora cheia de personalidade, em uma partida de tênis e eles logo se apaixonam um pelo outro. Durante os 93 minutos do filme, vemos um desenrolar de episódios do dia a dia do casal, com momentos de romance, risos e brigas. Não necessariamente nesta ordem, porque este é um filme não-linear, que vai e vem pelos acontecimentos. Ele também é narrado pelo próprio Alvy, que nos enche de piadas-metáfora sobre o relacionamento dos dois.

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Outra escolha improvável do diretor foi fazer os personagens, principalmente o Alvy que narra a história, poderem falar com o espectador, faze-lo observar o absurdo de uma cena, convidar outros personagens a voltar no tempo para analisar alguma coisa. Tudo isso é genial. Na melhor cena do filme, por exemplo, Alvy está com Annie na fila do cinema com um homem extremamente pedante (ou que Alvy considera pedante) atrás deles. Alvy começa a falar para o espectador como esse cara não sabe de absolutamente nada do que está falando, enquanto o próprio homem vem até ele e começa a se defender. A discussão termina quando Alvy traz o teórico de comunicação Marshall McLuhan em pessoa para dizer ao homem que ele realmente não sabia do que estava falando. A cena é absolutamente maravilhosa.

Uma das coisas que mais gosto sobre o Woody Allen é que ele não faz filmes dispensáveis. Por mais que se torça o nariz para algum filme da sua cinematografia (bem extensa já, com mais de 50 trabalhos), é inegável que seus roteiros são acima da média. E roteiros são 50% de qualquer bom filme. Allen consegue escrever diálogos perspicazes, irônicos, engraçados e que nunca caem no lugar comum. ‘Annie Hall’ é uma prova viva disso. É possível ser atraído pelo filme apenas por seus diálogos afiados e a história leve e fluida.

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Ainda falando no diretor, além de escrever o filme, ele também interpreta o Alvy. A escolha é bem acertada. Não sei por quê, mas sempre acho que Woody Allen é esse mesmo tipo de cara na vida real: culto e pedante ao mesmo tempo, alucinado por achar que sabe muito de muita coisa. Alvy por vezes chega a ser um personagem irritante. Para mim, foi difícil sentir alguma empatia por ele, além de “ok, mas cadê a Annie?”. Parece que ele está lá só para dar voz a tiradas sarcásticas (muito boas, por sinal) e servir de gancho para que a Diane Keaton apareça em cena. Aliás, Diane mereceu totalmente o Oscar que ganhou pelo papel. A Annie é a presença maior do filme, completamente doce, forte, singular, de olhar e gestos atrevidos.

Por sinal, pensando mais para frente, Annie Hall é uma mãe das “manic pixie dream girls“, aquelas garotas incríveis das comédias românticas, meio doidinhas, estranhas, atrapalhadas, que gostam de coisas diferentes e que deixam o carinha sempre de queixo caído. Por isso foi impossível não lembrar da Summer de ‘(500) Dias Com Ela’ (meu filme preferido da vida toda) enquanto assistia ‘Annie Hall’. Diga se de passagem, não fosse o Woody Allen, ‘(500) Dias Com Ela’ nunca teria essa inspiração tão forte, talvez até nem tivesse existido.

Pensando desse jeito, que bom que ‘Annie Hall’ existe. O começo de um manifesto pelas boas comédias românticas, à salvo dos clichês do gênero e ainda assim, divertida, singular, irônica e muito apaixonante.

Crystal Ribeiro

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Noivo Neurótico, Noiva Nervosa/ Annie Hall
Ano: 1977
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Atores: Diane Keaton, Woody Allen, Tony Roberts, Carol Kane, Paul Simon, Shelly Duvall, Janet Margolin, Christopher Walken, Colleen Dewhurst
Nota: 5 estrelinhas

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