‘Agnus Dei’ (2016)

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No mês passado uma adolescente de 16 anos foi estuprada por mais de 30 homens no Rio de Janeiro. No filme ‘Agnus Dei’, soldados soviéticos estupram freiras em uma invasão a um convento na Polônia. Sete delas ficam grávidas e várias outras contraem doenças venéreas e traumas fortes. São duas histórias reais: uma muito recente, a outra, acontecida há mais de 70 anos. Infelizmente, parece que as coisas não mudaram muito, a alma humana continua cheia de mistérios e cada vez mais degradante. Em ‘Agnus Dei’ (2016) a diretora francesa Anne Fontaine retrata a difícil repercussão dos acontecimentos com as freiras do convento. O que acontece com a fé dessas mulheres? Porque Deus haveria de fazer com que elas passassem por esta situação? Haveria ainda algo em que acreditar?

Essas questões fazem parte da base de ‘Agnus Dei’ (cordeiro de Deus, no latim), em francês ‘Les Innocents’. O filme se passa na Polônia em 1945. Mathilde Beaulieu é uma jovem médica trabalhando como estagiária pela Cruz Vermelha para tratar os sobreviventes franceses da Segunda Guerra. Certo dia, uma freira polonesa chega ao hospital implorando pela ajuda de Mathilde. Depois de muita insistência, ela vai ao convento e se propõe a ajudar quando descobre o estado avançado de gravidez de várias freiras. A partir daí, o longa acompanha Mathilde nos partos das Irmãs e mostra como a convivência com elas vai mudar suas crenças a respeito da fé e dos seres humanos.

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‘Agnus Dei’ não é um filme que se destaca por suas originalidades técnicas, apesar de ter uma direção muito segura. A câmera e os planos são bastante convencionais, estáticos e simples. O roteiro também não tem artifícios muito originais ou surpreendentes. Na verdade, o filme demora um pouco a engatar, e por todos esses fatores o começo soa meio frio e impessoal. Parece que o público só consegue sentir a história de verdade meia hora depois, a partir do momento em que Mathilde realmente se emociona com a situação das freiras e sente na pele o que elas sentiram. Ao meu ver, é aí que ‘Agnus Dei’ mostra a que veio: Mathilde é os olhos do público e o tema do filme só se torna pessoal quando acaba mexendo diretamente com ela.

Quem interpreta Mathilde é Lou de Laâge (reconheci ela de quando assistia a série ‘Os Pequenos Crimes de Agatha Christie’, na Tv Brasil). Sua personagem é bem durona, uma médica que gosta de crer apenas na ciência. No começo, entender o pensamentos e as reações das freiras diante da gravidez é difícil para ela. A maioria das freiras era virgem antes da invasão dos soldados e muitas se desesperaram por achar que vão para o inferno por terem sido desvirtuadas. Assim, as primeiras consultas médicas são marcadas pelo choro e medo das pacientes.

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O ponto de vista das freiras é representado pela Irmã Maria (Agata Buzek), uma jovem veterana do convento que foi encarregada pela Madre Superiora (Agata Kulesza) a acompanhar o trabalho de Mathilde. Maria é quem responde aos questionamentos da médica e “prega” a filosofia das freiras a ela. As duas se tornam muito amigas e os momentos em que estão juntas em cena são os mais ricos do filme. Já a Madre Superiora é uma mulher que quer fazer de tudo para proteger o segredo do convento e inicialmente vê com maus olhos a presença de Mathilde. Suas intenções são as melhores, mas é difícil para ela saber lidar da melhor forma com a situação.

‘Agnus Dei’ chega aos cinemas brasileiros em boa hora, para dar sustento e abrir ainda mais discussões a respeito do feminismo e da violência contra a mulher. Ele em si fala do tema de um modo menos convencional, mostrando freiras no olho deste furacão, como não é comum se ver por aí. O fato de ser uma história real também pesa, mas ele brilha sobretudo quando mostra o conflito da fé destas mulheres, que apesar de tudo, não deixam de lado aquilo em que acreditam. Não é um filme fácil, certos momentos são bastante difíceis de se assistir, mas junto com Mathilde, vamos conhecendo e cada vez mais admirando a força dessas mulheres.

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Colocadas nesta situação, elas são antes de tudo mulheres, que têm medo e têm direito a isso. Mesmo assim, se tornam verdadeiras forças da natureza, seres realmente admiráveis por manterem sua fé no mais alto grau. “Como você reagiria no lugar delas?”, o filme pergunta, e esta questão fica pairando na mente do público por todos os seus 120 minutos. É uma questão complicada, mas extremamente relevante. No fim das contas, ‘Agnus Dei’ brilha mesmo por nos fazer essa pergunta e nos desafiar a responde-la, não deixando que esse tema tão forte e tão complicado se perca no tempo.

Crystal Ribeiro

  • Filme assistido durante o Festival Varilux de Cinema Francês 2016

Agnus Dei (Les Innocents)
Ano: 2016
Direção: Anne Fontaine
Roteiro: Anne Fontaine, Pascal Bonizter
Elenco: Lou de Laâge, Agata Buzek, Agata Kulesza, Vicent Macaigne, Joanna Kulig
Nota: 4 estrelinhas

 

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