Crítica: Trilogia ‘Before’ (1995 – 2013)

No último domingo eu maratonei uma trilogia que estava a tempos na minha lista de pendências: a trilogia Before, escrita e dirigida por Richard Linklater em parceria criativa com os atores Ethan Hawk e Julie Delpy, que também interpretam os personagens principais. Se o tempo todo somos bombardeados com romances clichês, melosos e cheios de finais felizes inoportunos, é um suspiro para mim encontrar (e me apaixonar) por filmes como (500) Dias Com Ela (2009), Annie Hall (1977), Ela (2013) e agora essa trilogia. É quando eu volto a descobrir porque eu gosto tanto de assistir filmes de romance. Estes sim sempre tem espaço na minha estante.

A trilogia do Antes começou assim: durante uma viagem, o diretor conheceu uma moça chamada Amy Lehrhaupt numa loja de brinquedos e eles começaram a passear pela cidade falando sobre “arte, ciência, filmes e coisas”. Durante o passeio ele falou para ela que iria fazer um filme sobre “aquilo”. Amy perguntou o que era “aquilo”, e ele respondeu: “Este sentimento. O que a gente está tendo agora”. Foi daí que surgiu a ideia para o enredo de Antes do Amanhecer, primeiro filme da saga.

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Imagem: Cine Líbero Luxardo
  • Antes do Amanhecer (1995)

Jesse é americano. Celine é francesa. Os dois se conhecem num trem à caminho de Viena. Jesse vai descer na cidade para pegar um vôo de volta para os Estados Unidos e Celine vai seguir no trem para Paris, onde mora. Depois de muita conversa, Jesse propõe que os dois desçam em Viena para conhecer a cidade antes que ele pegue seu avião e eles não se vejam nunca mais.

E assim começa a deliciosa maravilha que é assistir Antes do Amanhecer. É aqui que começamos a acompanhar a história de duas pessoas comuns, mas ao mesmo tempo fascinantes. Celine é uma garota inteligente, que cursa a Universidade de Sorbonne e que gosta de sonhar alto. Seus pais foram ativistas quando jovens, mas hoje vivem de podar a filha de acordo com seus gostos e nunca deixam que ela tenha a palavra final sobre sua vida. Já Jesse vem de um lar desfeito, seus pais não estão mais juntos e desde muito cedo ele gosta de cair no mundo e viver de acordo com suas escolhas. Ela é forte, inteligente e tem cabeça aberta; ele é engraçado, cético e não tem neuras com a vida. Ela tem espírito velho, ele é um eterno adolescente.

Os dois têm personalidades bastante opostas. A ligação entre eles é muito forte e em pouco tempo já se percebem apaixonados. Durante essas horas em Viena eles conversam sobre tudo: família, existência, futuro, diferenças entre homens e mulheres… Enfim, o assunto nunca acaba, uma coisa puxa a outra e os minutos parecem fluir sem serem notados, tanto pelo casal quanto por nós que estamos assistindo. Mas volta e meia eles se deparam com a questão: como vão continuar se relacionando se moram tão distante um do outro? O espectador é convidado o tempo inteiro a somar o ceticismo, a insegurança, o lado racional e o “aquilo” que eles estão sentindo. O coração se parte a cada argumento, mas os olhos não se desgrudam da tela.

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Imagem: Cinema e Debate

Aliás, o roteiro acerta quando o assunto é fugir de obviedades. Se as primeiras cenas dão a impressão de que um conto de fadas vai começar, isso logo passa depois que eles começam a trocar as primeiras ideias em Viena. Indo de encontro aos roteiros expositivos comuns, o filme é cheio de “quases”, como quando Jesse tenta, mas perde a coragem de tocar os cabelos de Celine dentro do bonde, ou nos olhares dos dois dentro da cabine de música. O espectador morre porque nada acontece, mas esse “quase” consegue ser mais significativo do que se houvesse um toque ou um beijo. Tudo parece muito natural, como se essa história pudesse acontecer com qualquer um, em qualquer lugar.

O filme tem uma estética muito simples, as paisagens de Viena não têm o brilho das cenas de Meia Noite em Paris (2011), por exemplo, mas destacam a cidade sem tirar o brilho dos personagens. Não é um filme para qualquer um: a câmera enquadra Celine e Jesse quase o tempo inteiro e entramos de cabeça nos diálogos e pensamentos dos dois, mas com o suporte de cenas com muito significado. A ação física dá espaço ao confronto de ideias, então quem prefere filmes com muita ação e coisas acontecendo vai se decepcionar. Esse é o grande diferencial de Antes do Amanhecer (também de todos os outros): ter um roteiro com diálogos tão bem construídos que se bastam por si mesmos.

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Imagem: fontmeme.com
  • Antes do Pôr do Sol (2004)

Falar de Antes do Pôr do Sol não é dá spoilers sobre o resto da série, porque o bom não é saber o que acontece com eles (mesmo que fique uma curiosidade enorme para saber que fim levaram os personagens), mas sim entender mais um pouco da relação dos dois e como eles têm lidado com a vida depois deste primeiro encontro. É claro que se você não quiser absolutamente nenhum spoiler tudo bem, mas é melhor parar por aqui.

O segundo filme da trilogia se passa nove anos depois do primeiro. Nesse meio tempo (que não foi só real para o público, mas também para os personagens) em que estiveram separados, Jesse e Celine mudaram muito, suas vidas não são mais as mesmas de quando se conheceram. E o roteiro vai mostrando isso aos poucos, não entrega logo de cara o que aconteceu com os dois, mas vai dando pinceladas durante todos os 88 minutos do filme. Uma indicação do excelente trabalho que foi feito por Linklater.

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Imagem: Filmlinc.org

O interessante é notar a mudança nas opiniões que os personagens tinham, principalmente a respeito de amor e relacionamentos: se antes Celine era entusiasta do verdadeiro amor que duas pessoas podiam sentir e que essa busca era o que dava sentido à vida, agora ela passa por um momento de desilusões amorosas e seu lado cético toma a frente, como acontecia com Jesse; já ele, agora com um casamento frustrado, acredita que vai conseguir por a cabeça no lugar quando encontrar o amor de sua vida. Mesmo que a primeira vista os dois estejam seguros e bem resolvidos, todo esse disfarce vai caindo aos poucos.

O ritmo é perfeito. Jesse e Celine mais uma vez caminhando e se conhecendo (desta vez por Paris), e depois de quinze minutos parece que aqueles nove anos nunca existiram. A sintonia é a mesma. As camadas do roteiro vão se desenvolvendo, os personagens se tornam familiares de novo e o público não mais acha que os dois deveriam ficar juntos, mas sim que eles precisam um do outro. Tudo culmina na cena do apartamento de Celine, em que ela canta para Jesse a letra de uma valsa que escreveu no violão. Se no primeiro filme o espectador morria com os “quases”, aqui o coração chega a se partir. Sorte que não é preciso esperar para ver o filme seguinte.

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Imagem: IMP Awards
  • Antes da Meia-Noite (2013)

Em Antes da Meia-Noite, terceiro filme da trilogia, Celine e Jesse estão juntos, com duas filhas gêmeas e passando as férias na Grécia. Ele está preocupado porque acha que está perdendo a infância do seu filho Hank, agora com 13 anos, que só vê nos feriados. Celine entende sua preocupação, mas não aceita o fato de ter que se mudar com a família para os EUA já que está prestes a aceitar um emprego que sempre desejou. Quando as coisas pareciam calmas, uma possível separação parece ser inevitável para o casal.

Todos os filmes da trilogia são independentes, e mesmo que os finais deixem pontas soltas, elas servem para somar interesse ao filme, fazem parte da história. Mas é impossível não ver Antes da Meia-Noite como o ápice da aventura de Jesse e Celine. Nos filmes anteriores a separação deles era um tema recorrente, mas que parecia ter uma saída. Aqui o conflito vem somado com seus filhos, e esse amor é decisivo e tem grande relevância nos argumentos. O que só deixa o espectador mais nervoso e curioso pelo desfecho.

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Imagem: Consequence of Sound

Nove anos após os episódios de Antes do Pôr do Sol, o casal ainda tem aquela mesma ligação, a mesma cumplicidade e bom humor. Mas o tempo se passou, as ambições deles são outras e, de novo, é muito interessante ver essa mudança nas prioridades das suas vidas. Depois de ser compartilhada com outros personagens, a câmera volta a enquadrar Celine e Jesse em um momento longe da rotina de filhos/casa/trabalho e conseguimos, aos poucos, saber como realmente andam as coisas entre eles. Sutilmente, as questões vão sendo colocadas na mesa, as coisas nunca ditas começam a ser ditas e o coração se destrói de vez.

A cena da briga no quarto do hotel é desnorteadora. Tudo parece ir bem no começo e você espera um corte bonito para um desfecho romântico. Mas o diretor resolve que o público precisa sofrer um pouco e não tem pressa em terminar a sequência. Parece uma daquelas torturas chinesas: eles discutem e discutem e você só quer que eles calem a boca, deitem na cama e façam as pazes. Realmente fiquei nervosa com essa cena. O filme encerra a trilogia de uma forma muito bonita, indo na mesma linha de condução dos longas anteriores e deixando aquele gostinho de quero mais que eles sempre deixam. É inesquecível.


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Imagem: The Cheerful Wanderer

Assistir a trilogia do Antes, para mim, foi entrar em contato com (quase) tudo aquilo que me fascina no cinema: sutilezas, poucas e eficientes firulas técnicas e uma boa história bem contada. Não é preciso muito para fazer um bom filme. Os personagens são muito cativantes e dá para se identificar com vários dos seus pensamentos, até com a mudança deles conforme os anos se passam. O roteiro é não-expositivo, o espectador vai sabendo na hora certa cada informação necessária, nada é entregue de uma vez só. Mas, antes de tudo, esse é um romance real, sem floreios nem cenas bonitinhas e desnecessárias. O equilíbrio é perfeito.

Como sou fã de histórias de origem acho que meu favorito é o primeiro filme, mas é difícil dizer, todos são muito bons. Se você gosta de filmes do gênero, é bem capaz de você se apaixonar como eu. As horas passam voando e dá vontade de prender a Celine e o Jesse àquele momento, para que eles nunca mais deixem você. Quando questionado sobre uma sequência de Antes da Meia Noite, Richard Linklater disse que podia pensar sobre o assunto dentro de alguns anos. Os fãs ficam na espera.

Crystal Ribeiro


Antes do Amanhecer (Before Sunrise)
Ano: 1995
Direção: Richard Linklater
Roteiro: Richard Linklater, Kim Krizan
Elenco: Ethan Hawk, Julie Delpy
Nota: 5 estrelinhas

Antes do Pôr do Sol (Before Sunset)
Ano: 2004
Direção: Richard Linklater
Roteiro: Richard Linklater, Kim Krizan, Ethan Hawk, Julie Delpy
Elenco: Ethan Hawk, Julie Delpy
Nota: 5 estrelinhas

Antes da Meia-Noite (Before Midnight)
Ano: 2013
Direção: Richard Linklater
Roteiro: Richard Linklater, Ethan Hawk, Julie Delpy
Elenco: Ethan Hawk, Julie Delpy, Seamus Davey-Fitzpatrick, Ariane Labed, Athina Rachel Tsangari
Nota: 5 estrelinhas

2 comentários em “Crítica: Trilogia ‘Before’ (1995 – 2013)

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