‘O Retrato de Dorian Gray’ (1890), de Oscar Wilde

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“Curar a alma pelos sentidos e os sentidos por meio da alma…”

O Retrato de Dorian Gray (1890) é um caso clássico de livro que eu compro e que fica parado na minha estante por alguns anos até que eu me interesse em ler. Comprei ele há três anos, fiz duas tentativas de leitura e em nenhuma delas me engajei com a história, sempre parava no primeiro capítulo. Era um livro que eu sentia muita vontade de ler, mesmo não conhecendo muito da história, o pouco que eu sabia me deixava encantada. Mas só no mês passado, mesmo com infinitas coisas para fazer, que eu consegui engatar a leitura e devorar o livro. A sensação foi de que eu nunca havia tocado nele de tanto que adorei a escrita e o enredo. Como mágica, eu li todo o livro com um encanto que há muito tempo eu não sentia, a leitura fluía como se eu o estivesse lendo logo depois de ter comprado.

Para quem não conhece, O Retrato de Dorian Gray conta a história do ingênuo Dorian Gray, um adolescente dotado de uma beleza extraordinária e que ainda não conhece a maldade do mundo. Dorian conhece Basil Hallward, um pintor talentoso que decide fazer um retrato seu. No dia em que finaliza sua obra-prima, Basil recebe a visita do seu amigo Lord Harry Wotton, um homem cínico e hedonista que passa a vida aproveitando todos os pecados que pode cometer. Assim, Dorian conhece Harry e tudo o que Basil mais temia acontece: Harry acaba influenciando o jovem da pior maneira possível. No dia em que se conhecem, Harry atiça em Dorian o apreço pela sua enorme beleza, dizendo que a juventude é a única coisa almejada e relevante no mundo. Então vendo o seu retrato, Dorian lamenta o quão passageira ela é e diz que daria sua alma para que não ele, mas o quadro envelhecesse em seu lugar. Assim, Dorian, influenciado pelo novo amigo, começa a viver uma vida libertina e todos os seus pecados são refletidos no seu retrato, que passa a ficar cada dia mais desgastado enquanto ele se torna eterno.

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Único romance de Oscar Wilde, um dos escritores mais aclamados da literatura inglesa, O Retrato de Dorian Gray causou estardalhaço na época em que foi lançado, já que trata de assuntos como homossexualidade e hedonismo, o que ofendeu a sensibilidade dos ingleses. Ele foi publicado primeiro em uma revista, onde sofreu censura, e depois foi revisado e ampliado pelo autor para ser lançado como livro. Originalmente, nele constam treze capítulos, mas como as editoras achavam que o conteúdo precisava ser modificado, Wilde diluiu a homossexualidade da trama em mais sete capítulos, além de cortar diversas frases ditas “amorais”. No Brasil, apenas uma editora, a Biblioteca Azul, publicou O Retrato na edição censurada e sem cortes. Descobri em alguns blogs que as diferenças não são extremamente grandes, não existe muita coisa explícita sobre o triângulo amoroso dos personagens em nenhuma das duas versões, mas implicitamente é possível saber o que Dorian vem fazendo.

“Sim, ele procuraria ser junto a Dorian Gray o que, sem saber, o adolescente era para o pintor, que lhe havia traçado o esplêndido retrato. Ele tentaria dominá-lo, como aliás, já havia feito. Faria seu esse ser maravilhoso. Havia qualquer coisa de fascinante nesse filho de Amor e Morte.”

É engraçado pois, em comparação a escritores como Kerouac e Bukowski, O Retrato parece extremamente erudito e nada escandaloso, mesmo que a minha seja a edição censurada. Foi interessante notar essa diferença de pensamento entre a cultura e os costumes do século XIX e agora do século XXI enquanto eu lia. Wilde tem uma escrita muito elegante e requintada, ele vai construindo os pecados de Dorian de forma implícita, por meio das falas dos personagens. Apesar de ser um livro forte, o autor consegue trazer o enredo de forma mais sutil e reflexiva do que qualquer outra coisa. Sem dúvida esse foi o ponto que mais me encantou na leitura, o enredo discute a vaidade, o belo, o efêmero, critica a moral da sociedade da época trazendo questões como a vida dupla e o cinismo. De todos os livros que já li, esse foi o mais que teve marcações de frases que eu gostei. O autor não para, todos os capítulos têm alguma coisa a discutir, me surpreendi porque essas divagações não me entediaram, só me fizeram amá-lo ainda mais.

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O personagem que faz emergir essas questões é o Lord Harry. Ele é o estopim para o começo da “vida adulta” de Dorian, quem o apresenta à luxúria, aos prazeres mundanos e à hiper valorização dos sentidos, onde tudo precisa ser experimentado para que a passagem pelo mundo valha a pena. Em muitas análises, Harry é aludido ao demônio, pois é ele quem tenta o jovem para o pecado. Aos cuidados de Basil, Dorian era puro de alma. Depois que conhece Harry, ele se encanta por uma vida que ainda não conhecia e termina escolhendo por ela, chegando ao ponto de vender sua alma para que possa aproveitar as experiências da melhor forma e, externamente, ter sempre a mesma imagem imaculada. O interessante é ver como Lord Harry enxerga esse poder que tem sobre o jovem. Ele acha extremamente fascinante, como se estivesse realizando um estudo, o fato de que suas palavras exercem uma grande influência em Dorian. Seu cinismo é tão absurdo que chega a fascinar.

Sobre o retrato, é quase um martírio ler e não poder ver como a pintura evolui ao longo da história. A descrição de Wilde é misteriosa, não inteiramente descritiva, mas que ainda assim desperta a repulsa. É uma grande sacada fazer o leitor pensar em como estaria o seu próprio retrato se este fosse Dorian Gray e tivesse o poder de ver sua alma. Foi por causa desse visual, de saber como as pessoas interpretaram o retrato, que procurei assistir os filmes inspirados no livro. Até agora só consegui ver um dos mais famosos, a adaptação de 2011, estrelada pelo Ben Barnes. É um daqueles filmes apressados, onde o começo mostra tantos acontecimentos que o espectador não consegue desenvolver uma empatia pelo filme. O final foi completamente modificado, o que me deixou bem decepcionada porque, como eu vinha esperando, o livro se encerra de forma absolutamente incrível. É um filme regular, o ponto positivo é ter o Colin Firth como Lord Harry.

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“Mas, o retrato?… Que dizer daquilo? Ele possuía o segredo de sua vida; havia-lhe ensinado a amar sua própria beleza. Ensinar-lhe-ia a odiar a própria alma? Deveria contemplá-lo ainda?”

O Retrato de Dorian Gray foi tão especial como leitura para mim que me lembrou a experiência de ler On The Road (1957), do Jack Kerouac. A sensação de prazer e diversão foi a mesma, os dois autores são igualmente brilhantes. As reflexões de Oscar Wilde sobre o mundo foram absolutamente diferentes de tudo o que eu já li, mas também me fizeram colocar o livro entre os meus preferidos. Não é uma leitura exatamente fácil, ele devaneia bastante (cheguei a pular um capítulo no meio do livro por ser muito entediante), mas no todo é uma obra divertida, reflexiva e que realmente fascina o leitor. Espero comprar a versão original um dia e ter mais uma vez a incrível experiência de ler O Retrato de Dorian Gray.

Crystal Ribeiro

3 comentários em “‘O Retrato de Dorian Gray’ (1890), de Oscar Wilde

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