Resenha: ‘Reparação’ (2001), de Ian McEwan

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Eu lembro da sensação de ter lido Machado de Assis na época do colégio. Desde esse tempo eu achava que ninguém no mundo podia escrever melhor que aquele cara. A elegância, a ironia, o humor negro, a fluidez de ideias, ninguém sabia falar das desventuras humanas melhor do que ele. Foi quando eu descobri o meu gosto por esse tipo de narrativa: histórias de pessoas comuns, sem poderes sobrenaturais ou tramas mirabolantes, que contam um pouco do modo de vida das pessoas alguns séculos atrás. Então surgiu Jane Austen e ela se tornou minha maior inspiração na escrita. Assim como Machado, ninguém conseguia fazer do dia a dia de uma personagem comum um assunto tão interessante quanto ela. Mas a visão feminina de suas obras é o que me deixa ainda mais encantada com a sua prosa sensitiva e excitante. Eis que surge Ian McEwan numa época em que eu achava que nada iria me empolgar mais do que O Retrato de Dorian Gray (1890). Foi arrebatador, tal qual Dom Casmurro (1899), Orgulho e Preconceito (1813) e até On The Road (1957), Reparação (2001) veio para se tornar outro marco na minha vida.

Protagonizada pela jovem Briony Tallis, a caçula de uma rica família inglesa, Reparação conta o que se passou num dos mais quentes dias do verão de 1935, na Inglaterra, enquanto a família Tallis está passando as férias em sua casa de campo. Cecília, irmã mais velha de Briony, é quem protagoniza a cena que dá início à série de mal-entendidos que culminará no grande crime da menina, que vai afetar todas as pessoas da casa. Briony vê através de uma janela, Robbie, filho da empregada e amigo da família, obrigar Cecília a mergulhar quase nua dentro da fonte do jardim. Mas esse e outros eventos que a menina vai presenciando não são apenas contados pela visão dela, assim é possível entender a situação de vários modos diferentes. Apesar disso, a trama não perde o mistério de uma grande questão que o livro apresenta e nem tira o prazer da surpresa que o leitor tem ao se encaminhar para o final da história.

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Pode parecer uma sinopse um tanto obscura, mas qualquer informação a mais pode resultar em muitos spoilers e se tem um livro que deveria ter seus spoilers evitados é este. Para aqueles que já assistiram a adaptação para o cinema Desejo e Reparação (2007), não temam, eu estive entre essas pessoas e garanto que a magia da história continua inteira durante a leitura. Ian McEwan é um autor bastante refinado. Seu texto é muito ilustrativo, ele traz à tona imagens e mais imagens da história, é possível imaginar todo o cenário com muita facilidade. Ele também consegue criar personagens complexos e mostrar suas reflexões e personalidades de um jeito muito particular e genial. O livro tem a atmosfera das obras de Jane Austen, mas com uma carga dramática maior e com um enredo mais denso. Reparação é um drama psicológico que mexe com o emocional do leitor de uma forma que eu nunca li igual.

Aqui o leitor é convidado a fazer um julgamento, escolher um lado. O livro é dividido em três partes: a primeira conta o que houve naquele dia de verão, o segundo acompanha Robbie numa jornada durante a Segunda Guerra Mundial e o terceiro conta o dia a dia da nova vida de Briony, além de um Epílogo. Briony tem 13 anos, é uma menina que gosta de ver o mundo dentro da sua própria organização, é imaginativa, adora criar histórias e sonha em ser escritora. Nesse dia em especial, ela está criando uma peça para seu irmão Leon, que veio visitar a família depois de muito tempo fora. Ele traz o milionário empresário do chocolate Paul Marshall como convidado. Também chegam a casa para serem atores da peça de Briony os primos do Norte, Lola e os gêmeos Pierrot e Jackson, que vão passar algum tempo com a família depois da separação e abandono dos pais. A mãe dos irmãos Tallis está sempre no quarto com enxaqueca e longe do marido que está sempre em Londres arranjando uma desculpa para não voltar para casa.

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Dentro de todo esse contexto de emoções e aprendizados que está se tornando a vida de Briony, ela tem que escolher entre continuar com seus lindos romances que sempre terminam em casamento ou começar a pensar em histórias mais substanciais, com cara de “adultas”, onde nem sempre as coisas seguem aquele modelo de perfeição que ela tanto adora. Briony está vivendo uma transição complicada entre a infância e a adolescência e não está sendo fácil para ela. Suas ações inconsequentes podem ser perdoadas por sua idade ou ela tem plena consciência da seriedade de seus atos?

Falando do casal principal, Cecília e Robbie cresceram juntos. A mãe dele sempre trabalhou para os Tallis e Robbie foi criado como da família, tanto é que quando quis ir para a faculdade, foi o patriarca quem pagou seus estudos. Cecília e ele estudaram na mesma faculdade e mal se falavam. Mas depois de formados, quando Robbie ganhou um diploma de primeira classe e Cecília de segunda, apenas porque Cecília é uma mulher, os dois passaram a se ver como completos estranhos. É a partir desses fatos que Briony fará seu julgamento, ao mesmo tempo em que Cecília e Robbie vão repensar o que existe entre os dois.

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A minha vontade é de escrever sobre cada capítulo do livro, discutir todas as coisas que acontecem nele e falar mais e mais como Ian McEwan é um dos melhores escritores que já tive o prazer de ler. Ele se tornou para mim um daqueles casos de escritor de quem eu leria até a lista de compras. Pretendo ter todos os livros dele que eu encontrar. A facilidade com que me envolvi com a história, a fluidez com que descreve as imagens e as reflexões dos personagens, o fato de que não consegui largar a leitura por um dia sequer mesmo que a faculdade estivesse me enlouquecendo, tudo me deixou completamente apaixonada por seu modo de contar uma história. Se me falassem um tempo atrás que eu leria 99% desse livro de 444 páginas apenas no ônibus/metrô em pouco mais de uma semana eu não teria acreditado. Isso só prova o quanto fiquei extremamente feliz com a compra, satisfeita mesmo. Vai ser mais uma preciosidade que eu guardo com muito carinho na minha estante.

Crystal Ribeiro

 

3 comentários em “Resenha: ‘Reparação’ (2001), de Ian McEwan

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