Crítica: ‘Desejo e Reparação’ (2007)

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Imagem: Pinterest

Para mim, Desejo e Reparação (2007) foi um daqueles filmes que não se esquece. Martelou na minha cabeça por bastante tempo, tempo suficiente para que eu resolvesse ler o livro do qual ele foi adaptado, Reparação (2001) do escritor Ian McEwan, que já tem resenha aqui no blog. O fato de ter assistido antes não atrapalhou a leitura, a força da narrativa é tão grande que o fato de você já saber como a história termina só aumenta a angústia durante todo o tempo em que você está lendo. Eu nunca fui de ligar muito para ler o livro depois de assistir ao filme. Algumas semanas atrás, logo depois de ter concluído o livro, fui correndo assistir a adaptação outra vez e saber se o diretor Joe Wright tinha conseguido passar todo aquele encantamento para a tela.

Protagonizada pela jovem de 13 anos Briony Tallis, a caçula de uma rica família inglesa, Reparação conta o que se passou num dos mais quentes dias do verão de 1935, na Inglaterra, enquanto a família Tallis está passando as férias em sua casa de campo. Cecília, irmã mais velha de Briony, é quem protagoniza a cena que dá início à série de mal-entendidos que culminará no grande crime da menina, que vai afetar todas as pessoas da casa. Briony vê através de uma janela, Robbie, filho da empregada e amigo da família, obrigar Cecília a mergulhar quase nua dentro da fonte do jardim. Mas esse e outros eventos que a menina vai presenciando não são apenas contados pela visão dela, assim é possível entender a situação de vários modos diferentes. Apesar disso, a trama não perde o mistério de uma grande questão que o livro apresenta e nem tira o prazer da surpresa que o leitor tem ao se encaminhar para o final da história.

Para mais detalhes sobre o enredo, clique aqui.

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Imagem: Adoro Cinema

Em termos de fidelidade ao livro, Desejo e Reparação não faz feio. Fora algumas adaptações, principalmente no final para que o livro fosse melhor passado para a tela, não tem como negar que é incrivelmente fiel à obra de McEwan. O que mais me impressionou foram os detalhes apontados no livro sobre a rotina e personalidade dos personagens, como o vestido da Cecília ou os animais de brinquedo organizados pela Briony, muitos deles estão presentes no filme e para o leitor isso é muito legal. A distribuição da história em quatro partes também está lá, tal qual o livro. Mas infelizmente nem tudo foi uma maravilha em termos de adaptação. Eu não sei se algum diretor no mundo conseguiria um dia trazer aquela mesma força e complexidade que o romance carrega. Acredito que seja impossível, um livro é uma forma diferente de arte e por mais fiel que a história e os detalhes sejam, nunca um será exatamente igual ao outro. Quem gostou da leitura não pode decepcionar com o filme e quem chegou primeiro ao filme, assim como eu, também pode se apaixonar pela história.

A boa notícia é que Desejo e Reparação se basta sozinho. Sem a leitura do livro ele continua sendo um trabalho muito honesto, sensível, muito bonito de se assistir. A impressão é que Joe Wright conhece muito bem seus personagens e sabe exatamente o que fazer para destacá-los em cada cena. Como acontecem muitas coisas na história, não sobra muito tempo para uma cena contemplativa ou algo do tipo, é um filme bem ágil, não tanto de palavras, mas de ações, os personagens estão sempre fazendo alguma coisa. A fotografia é muito bonita, as primeiras cenas têm uma atmosfera que passa bem a languidez e o calor daquele dia quente, em seguida ela começa a se tornar cada vez mais obscura e acusadora. Existe uma urgência na condução da história, um ritmo um tanto apressado que eu gostaria que tivesse sido mais demorado. No entanto, é esse ritmo, sobretudo na primeira parte, que torna ainda mais sufocante a sucessão dos acontecimentos e que culmina no gran finale.

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Imagem: Cinema, Sal e Tequila

Algumas escolhas da edição, tanto nas cenas quanto na trilha sonora foram muito bem sacadas. A primeira é que toda vez que Briony, a grande protagonista, estava fazendo uma confissão ou refletindo sobre o que disse ter visto, o fundo do cômodo em que ela estava desaparecida, ao seu redor a tela ficava completamente negra o que ajudou a aumentar a tensão do espectador e refletir sua culpa, esteja ela consciente ou não, do que havia feito. Nessas cenas, também em várias outras, quando algo estava sendo confessado, a trilha sonora incorporava o som das teclas da máquina de escrever de Briony, que estavam sempre ávidas para escrever a fantasia e a realidade em suas histórias.

O elenco é estrelado. Se nem todos os atores, todos ingleses, eram muito conhecidos na época, hoje em dia isso não pode mais ser dito. Além da Keira Knightley (Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra, Orgulho e Preconceito) como Cecília, também temos James McAvoy (X-Men: Primeira Classe, X-Men: Dias de um Futuro Esquecido) como Robbie, Benedict Cumberbatch (Sherlock, Além da Escuridão: Star Trek) como o empresário Robbie Marshall e Saiorse Ronan (Além do Paraíso, Brooklyn) como Briony. Queria destacar a interpretação da Soirse, mesmo sendo tão nova durante durante o filme ela atuou com muita segurança, foi um ótimo desempenho. Pelo trabalho, Saiorse recebeu sua primeira indicação ao Oscar, como Atriz Coadjuvante.

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Imagem: Alchetron

Desejo e Reparação não é apenas a adaptação do livro de Ian McEwan, é um filme sobre amor, ressentimento, mentiras, amadurecimento e tentar reparar um erro. Uma história melancólica que faz com que o espectador se agarre na ponta do último fio de esperança possível, quando se está perdido sem entender como as coisas foram chegar naquele ponto. Repleto de muitas qualidades técnicas, Desejo e Reparação emociona e envolve de uma forma bem particular. É impossível assistir de novo sem torcer muito para que, de algum jeito mágico, a história tenha mudado e o final seja outro. Tanto na ficção quanto na realidade, a esperança nunca se acaba.

Crystal Ribeiro

Um comentário em “Crítica: ‘Desejo e Reparação’ (2007)

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