Resenha: ‘Não Me Abandone Jamais’ (2005), de Kazuo Ishiguro

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O livro Não Me Abandone Jamais (2005) tem um título infeliz, sobretudo aqui no Brasil. É muito ruim lembrar da música de Tim Maia toda vez que se lê o nome na capa, mas não porque a música seja ruim e sim porque é irritante mesmo. Enquanto se carrega o livro para lá e para cá as piadinhas são infinitas. O pior é que, literalmente, esse é o nome dele. O Never Let Me Go vem de uma música muito bonita que a protagonista gosta de ouvir, da cantora Judy Bridgewater, que existe de verdade. O problema é que a primeira vista ele dá a impressão de ser uma história de amor piegas e cheia de açúcar, o que de modo algum é verdade. A música e o seu significado têm uma grande importância na história e até traduz o sentimento e a mensagem do livro, mas não eu fui a única que o leu e preferiu que os mal entendidos não existissem, já que eles desviam a seriedade da história.

Mas indo direto ao ponto, Kazuo Ishiguro fez um trabalho impressionante aqui. O autor coloca seus leitores na pele dos personagens principais que, por mais humanos que sejam não são iguais a nós. Eles pensam e agem diferente, suas relações e modos de ver o mundo são diferentes dos nossos porque a criação deles foi diferente da nossa. Mas porque tudo isso acontece? Se eles são seres humanos, o que os diferencia de nós? Esse clima de mistério está presente durante toda a leitura de Não Me Abandone, mesmo que nem tudo seja mistério. Não é impressionante um escritor conseguir manter o suspense na história mesmo que todas as surpresas do enredo já sejam entregues na sinopse do livro? O que Ishiguro quis fazer aqui não foi lançar revelações bombásticas, mas fazer o leitor meditar sobre elas, como elas agem na vidas dos personagens e como ele próprio jamais vai entender as ações que resultam delas porque simplesmente ele não é como os personagens. E isso às vezes se torna sufocante.

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O livro é narrado por Kathy H., que através de suas memórias relembra como ela, Ruth e Tommy cresceram no orfanato Hailsham, na Inglaterra. De forma não linear, como num fluxo de pensamento, ela conta sua infância no orfanato, a adolescência nos Chalés, e quando, já adulta, se torna uma cuidadora. Mas Hailsham não é um orfanato tradicional, não existem pais que adotam as crianças. Lá são criados clones que recebem toda a educação e cuidado possível para que quando cheguem a determinada idade eles possam doar seus órgãos vitais para pacientes em estado terminal. Este é um avanço da ciência que não é datado no livro, ele não deixa claro em que época os personagens estão vivendo, sabemos apenas que este tipo de experiência não é recente.

Kazuo não dá essa notícia logo de cara, ele vai soltando informações pela história aos poucos para que o leitor vá desvendando com calma o destino dos personagens. Pode parecer loucura olhando de fora, mas funciona muito bem justamente porque o foco não são os acontecimentos, mas a reflexão sobre a vida das crianças Hailsham. A escrita de Kazuo é bastante simples e fluida, como se Kathy estivesse nos contando a história ao vivo realmente. No meio de uma lembrança ela se recorda de outra, conta esta segunda para voltar para a primeira, mas sem que isso se torne confuso. Se pudesse definir tanto a escrita quanto os personagens de Kazuo diria “puro”, foi essa a maior sensação que tive. A pureza do relato de Kathy é ao mesmo tempo singela e revoltante. Seus personagens estão envoltos em uma estranha áurea de sonho. Infelizmente, é difícil explicar Não Me Abandone.

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Kathy é uma menina inteligente, amigável e gentil. Ela é a melhor amiga de Ruth, que é extrovertida e geniosa. Apesar de próximas, as duas são extremamente opostas: enquanto Kathy chega a ser passiva, Ruth está sempre tentando conseguir o quer, mesmo que para isso precise passar por cima de alguém. Não chega a ser uma relação de amor e ódio no começo, mas chega um ponto em que o leitor não aguenta mais ver Kathy engolindo as provocações de Ruth, que mesmo amiga dela, não mede esforços para parecer mais esperta e madura que Kathy. Tommy é o contraponto entre as duas, fica no meio entre suas personalidades. Apesar de seus ataques de fúria por ser zoado pelos alunos, ele tem um grande coração e começou uma amizade com Kathy quando ninguém mais queria ser seu amigo. Os três vão crescer e descobrir o mundo juntos durante a época em que as doações não começam, os sentimentos são muitos, as confusões também, e é esse relacionamento que vai ser a linha condutora da história, que vai dá vida e espaço às reflexões.

Os três, assim como todos os alunos de Hailsham, sabem o que os espera, mesmo que ninguém tenha falado diretamente. As lições que recebem são as mesmas de qualquer criança comum, mas a estranheza do leitor em relação ao modo como eles vivem por justamente terem sido educados para não viver presos ao mundo é a coisa mais perturbadora do livro de Kazuo. Fora do mundo de Hailsham, tudo para eles é uma novidade interessantíssima: as doações de brinquedos e objetos velhos que recebem, trabalhar em escritórios ou como motoristas, fazer a escolha do que comer no cardápio de uma lanchonete. É possível ligar esse comportamento deles a um estado “primitivo” de sentir a vida, vendo e admirando as coisas por seu propósito inicial, sem floreios. Atividades tão banais e cotidianas são elevadas a um nível tão alto de interesse que nos faz questionar: será que só o que é grandioso nos impressiona? Perdemos a capacidade de admirar as pequenas coisas?

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O autor gosta de brincar com seu público, nos faz refletir sobre nossos próprios atos a partir da experiência de seus personagens. Mas se Kathy, Tommy e Ruth sabem o que os acontecerá no futuro, porque eles não se rebelam? Porque deixam o controle de suas vidas nas mãos de outras pessoas? É perturbador porque a educação deles foi essa, não podemos compreender, mas eles cresceram com esse propósito do qual não podem fugir. E eles estão perfeitamente bem desse jeito, não querem que seja de outra forma. Sabendo que a vida tem um fim próximo o esperado seria que eles decidissem viver o mais intensamente, aproveitando tudo da melhor forma possível. Mas dentro daquele mundo, alienado de certa forma, eles são perfeitamente felizes, vivem com seus próprios interesses, amores e desavenças como se tivessem todo o tempo do mundo. Uma atitude certamente muito diferente de nós que esperamos ter muito tempo ainda pela frente.

Com Não Me Abandone Jamais, Kazuo Ishiguro apresenta um livro simplíssimo à primeira vista, mas que, depois de algumas reflexões, percebemos que tem muito mais a dizer do que se poderia imaginar. Fazer brotar um sentimento de estranheza de coisas tão simples que o ser humano acaba complicando e colocar em discussão conceitos que já nos são tão naturais são as grandes virtudes do livro, uma obra completamente diferente de tudo o que você vai ler. É por meio de sutilezas que Kazuo nos apresenta a vida em Hailsham e como seus alunos lidam com futuro, amizade, sexo e esperança. Não de uma forma que agrada a todos, mas aqueles que gostam de boas reflexões e de uma ficção científica bem diferente vão se fascinar pelas descobertas das crianças Hailsham.

Crystal Ribeiro

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