Brechós do Recife: Renovando o guarda-roupa sem gastar horrores (Parte 1)

O post de hoje é muito especial. Aqui está o resultado de uma matéria que precisou de meses para ser feita, pelo menos três, até que eu tivesse todas as partes juntinhas, escritas e devidamente prontas. Gostei tanto do meu trabalho neste projeto da faculdade, ele terminou sendo tão a minha cara e tão a cara do Flamingos, que não resisti em trazer para que mais pessoas além do meu professor pudessem ler. Também porque teve tanta gente envolvida, ainda que fosse só respondendo um questionário, que não tinha como deixar o resultado em off. Mesmo que você não more em Recife, esse é um pequeno empurrãozinho para mudar um pouco o estigma do brechó como um lugar desorganizado que só vende roupas velhas. Hoje brechó é um sinônimo de estilo, bom gosto e até de sustentabilidade.

Como o texto ficou muito grande (eu tinha bastante conteúdo) vou ter que dividir a matéria em três partes, assim a leitura vai ficar mais fácil. As próximas partes saem na quarta (14/12) e na sexta (16/12). Não deixem de acompanhar!

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Bazar Paralelos

Às vezes não é fácil ver os amigos mostrando roupas novas e exibindo looks recém-saídos da loja sem pensar “poxa, por que eu não posso comprar roupas novas também?”.  Quando o dinheiro está curto e prioridades como almoço e transporte nunca pareceram consumir tanto o orçamento é que se percebe o quanto cada centavo é precioso. Mas ao mesmo tempo em que vem aquela vontade enorme de sair às compras igual à Julia Roberts em Uma Linda Mulher (1990), é só entrar numa loja de departamento e ver uma blusa básica custando os olhos da cara que toda a felicidade vai pelo ralo.

Hoje em dia não dá para gastar dinheiro à toa, mas a possibilidade de não comprar também não costuma ser muito amigável. É por isso que atualmente cada vez mais se busca soluções para incrementar e renovar o look nosso de cada dia. E os brechós podem ser preciosos aliados nessas situações. Presentes no Brasil desde o século XIX (os primeiros registros datam do conto “Ideias de Canário” de Machado de Assis, de 1899), os brechós físicos não chegam a dividir público com lojas de shopping, por exemplo, mas costumam ter um nicho de frequentadores assíduos e vem aos poucos entrando no hábito dos brasileiros, sobretudo pelos preços mais baixos. No Recife, a tradição começou na década de 1980 com o Bazar Paralelos, no centro da cidade. Mas porque tantas pessoas ainda tem preconceito com brechós?

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Bazar Paralelos

O fato da maioria das roupas já ter sido usada antes é um dos fatores que mais causa esse bloqueio. “Ainda são atribuídas aos brechós características como baixa qualidade, que são produtos ‘lixo’, danificados. Dessa forma, percebe-se que é ainda é um tipo de negócio direcionado para um público muito específico. Como o preconceito pode ser associado à formação cultural dessas pessoas, é difícil vencer essa barreira”, explica Karine Fernandes, professora de Moda do Senac-PE. “O brasileiro em si não tem o hábito de frequentar brechó. Em países da Europa como Inglaterra, França e Itália, até EUA mesmo, é muito mais comum. Eles têm uma mente mais aberta para roupas usadas e o hábito vai passando de pai para filho”, afirma Elizabeth de Oliveira, proprietária do Cabine Brechó, na Zona Norte do Recife.

Sim, a maioria das roupas é antiga, mas seu estilo é que vai dizer o que levar para casa; e não, as peças não são feias nem sujas e nem cheias de doença, como muitas pessoas acreditam. As roupas dos brechós chegam lá através de fornecedores, muitas vezes de outros estados, que compram peças de lojas que estão fechando para vendê-las aos brechós cadastrados. Também é possível pôr à venda peças em consignação, ou seja, alguém leva uma peça até o brechó e deixa lá para que seja vendida. Quando isso acontece, o lucro é dividido entre a pessoa que a forneceu e o proprietário do brechó. A proporção em que esses dois tipos de fornecimento acontecem varia de brechó para brechó, mas seja lá qual for ele, para serem vendidas as peças precisam estar em ótimo estado de conservação e muito limpas.

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Brechó Dona Quitinha

Outra dificuldade apontada por quem não frequenta brechós é não saber onde ficam. O sistema de divulgação desses negócios é diferente das lojas tradicionais, eles não estão em centros de comércio como shoppings. O mais comum é saber pelo bom e velho boca a boca, mas a internet também é um meio de encontrar brechós perto de você. Mas não confie sempre no Google Maps, muitas vezes os brechós apontados não estão mais abertos. Brechós mais sofisticados (sim, eles existem) costumam ter páginas em redes sociais, mas os populares, que são os mais baratos, são como tesouros de pirata que você mesmo tem que descobrir.

Mesmo que esse preconceito ainda exista, ao longo das décadas o ato de comprar em brechós vem deixando de ser um tabu para se tornar uma afirmação de estilo. “A tendência do comportamento vintage, que vem muito em função do caos vivido pela sociedade, estimula a busca por produtos que representem esse resgate. Outro aspecto que estimula essa busca é a possibilidade de encontrar peças exclusivas que, quando misturadas a outras peças do guarda-roupa, transmitem personalidade e estilo”, afirma Karine. Denizete de Souza tem 55 anos e desde os seus vinte e poucos tem o hábito de frequentar brechós. “Quando eu entro (num brechó) eu sei que aquelas roupas já foram compradas por outras pessoas, já foram amadas por outras pessoas, só isso já dá uma energia completamente diferente no lugar. Sem falar que tudo é muito eclético e tem um preço muito bom. Então se você encontra uma peça de bom caimento é maravilhoso”.

(Pesquisa feita com 30 pessoas)

Para a enfermeira Eneida Foerster, 64 anos, também frequentadora assídua desde que sua filha a levou pela primeira vez, a questão principal não é nem o preço, mas a possibilidade de fugir das tendências das lojas tradicionais. “O preço é muito bom, mas melhor ainda é você entrar num brechó e encontrar peças diferentes, únicas, de uma outra época, não é só modismo que vende lá. E a moda é cíclica, então a roupa nunca fica desatualizada. Você também encontra tecidos que não são muito comuns em lojas, como o linho. No brechó você acha peças lindas de linho sem gastar uma fortuna”.

A mídia tem sido peça chave nessa popularização e no status “cool” que está sendo atribuído aos brechós. “Hoje em dia é muito comum ver famosas e blogueiras comprando e até virando donas de brechós. No fim, quem está na mídia é quem dita as tendências”, afirma Micaelle Martins, proprietária do Brechó da Mika em Boa Viagem, zona sul do Recife. Se antes eram sinônimo de roupas para quem não podia gastar com peças boas, hoje em dia os brechós recebem um público das mais diversas idades e classes sociais. “Aqui eu recebo pessoas de 8 a 80 anos, de classe A a Z. Não existe mais essa distinção de quem compra e quem não compra em brechó”, diz Wanbesy Brito, proprietária do Dona Quitinha, na zona sul do Recife.

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Cabine Brechó

São muitas as vantagens do hábito de frequentar brechós. Seus motivos podem ser os preços baixos, as roupas de qualidade ou as peças diferentes, mas não importa, vale tudo para não chorar pelos estragos feitos no cartão no fim do mês. E se você está desesperado para saber onde fica o brechó mais próximo para ir às compras, não tema, aqui vão algumas opções de diferentes tipos de brechós recifenses para se esbaldar. Com consciência, é claro.

Continua no próximo post…

Crystal Ribeiro

2 comentários em “Brechós do Recife: Renovando o guarda-roupa sem gastar horrores (Parte 1)

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