O que eu assisti para o Golden Globe 2017

No domingo dia 08 de janeiro aconteceu a 74ª edição do Golden Globe Awards que premiou os melhores do cinema e da televisão americana em 2016. Como uma boa cinéfila e amante de premiações que sou, lá estava eu pronta para saber quais os filmes que eu deveria prestar atenção na corrida do Oscar. Mas não só isso, claro. Colocar na ponta do lápis os filmes indicados e assisti-los assim que tiver oportunidade é certeza de garantir algumas horas envolvida em histórias bem contadas e me emocionando com filmes incríveis.

Como as séries não são o meu forte, vamos ao que interessa. La La Land foi o grande campeão da noite, fazendo história já que levou nada mais nada menos do que os sete prêmios a que foi indicado, um recorde que nenhum outro longa conseguiu fazer antes dele. Não preciso dizer o quanto a combinação Ryan Gosling e Emma Stone + musical + Damien Chazelle + essa quantidade de prêmios ganhos me deixou ainda mais ansiosa pela sua estreia. Para alegria geral, dia 19 está quase aí!

Pulando essa pequena observação, o caso é que não quis chegar no dia do Golden Globe zerada. Corri a internet em busca da maior quantidade de filmes que consegui achar para ter uma ideia dos meus favoritos, já começar meus palpites para o Oscar e trazer como indicação aqui no Flamingos, por que não? Alguns deles já haviam passado pelos cinemas nacionais, sobretudo as comédias, outros ainda iam entrar em cartaz. A seleção é bem diversa, dá para agradar todo mundo e garantir muitos sorrisos e até lagriminhas. Vamos a eles?

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  • ELLE (2016), DE PAUL VERHOEVEN

Comecei a maratona de filmes pelo francês Elle, um drama psicológico sobre uma mulher que teve a casa invadida por um homem desconhecido que a agrediu e a estuprou. Esse evento serve de pretexto tanto para o suspense a respeito de quem foi o agressor de Michèle (a maravilhosa Isabelle Huppert) quanto, principalmente, para pôr em jogo a análise da personalidade de seus personagens. O que mais gostei em Elle foi que ninguém presta, todos os personagens têm algum defeito, uma vida fora do eixo, algo que nos faz ficar incomodado ou perplexo. A própria protagonista, mesmo sendo a vítima da história, é uma mulher completamente fora da curva, de atitudes duvidosas, e que nunca é vitimizada pelo filme. Uma difícil análise do comportamento humano, nem um pouco convencional e com momentos que de tão absurdos se tornam hilários. Prêmio de Melhor Atriz de Drama mais que merecido para Isabelle.

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  • LOVING (2016), DE JEFF NICHOLS

Dirigido pelo cara que fez o ótimo O Abrigo, Loving é a história real de Richard e Mildred Loving, um jovem casal que é preso em 1958 e obrigado a se separar já que o estado em que eles moram, a Virgínia, não permite o casamento entre pessoas de raças diferentes. Loving é sobretudo, um filme sutil. Ele trata dos movimentos em defesa dos direitos civis dos negros americanos de uma forma extremamente delicada em uma escala que poucas vezes se vê no cinema. Não existem multidões defendendo os direitos de ninguém, aqui apenas se vê os personagens de Ruth Negga e Joel Edgerton querendo voltar para o interior para poder criar os filhos. Apesar de ela ser a força que de alguma forma luta contra essa injustiça, foi a atuação do Joel que mais me chamou atenção. Um personagem calado, introspectivo, com uma casca que só ela consegue transpor. Um belo filme.

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  • CAPITÃO FANTÁSTICO (2016), DE MATT ROSS

Sem dúvida, um dos meus queridinhos dessa temporada de premiações. Aqui o personagem do Viggo Mortensen é um pai e ex-professor que cria seus seis filhos na floresta, longe de todos os males da civilização, treinando-os para qualquer adversidade que possa ocorrer e sob suas próprias regras. As crianças são incentivadas à leitura e ao conhecimento sem nenhum tabu ou coisa que os impeça, o que rende diálogos maravilhosos. O filme traz a interessante questão do “ser civilizado“, é certo a “civilização” interferir no modo que um pai escolhe criar seus filhos? Diferente de qualquer clichê do gênero, e aliado à belíssimas imagens produzidas por uma direção de arte fantástica em um road movie extremamente tocante, Capitão Fantástico não defende a revolta ao que é diferente dele, mas sim o amor, seja entre pais e filhos, entre o homem e a natureza e até ao conhecimento. Muito amor em um filme só.

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  • O LAGOSTA (2015), DE YORGOS LANTHIMOS

Não fosse por este aqui, Capitão Fantástico teria sido meu preferido da lista. Mas porque negar que me apaixonei por O Lagosta? Na sociedade plástica e futurística do filme, todo ser humano precisa estar em um relacionamento com alguém para continuar a viver normalmente. Se não, ele acaba sendo mandado para uma espécie de hotel em que tem 45 dias para encontrar o seu “par ideal” entre os hóspedes e sair em “lua de mel” com ele. Vale lembrar que dentro do hotel você recebe todo tipo de orientação bizarra de como é maravilhoso estar em um relacionamento e como sozinho você é insignificante. Se ao fim desses 45 dias as coisas não correrem bem, a pessoa é transformada em um animal a sua escolha. Simples assim. O filme acompanha o personagem do Colin Farrell (surpreendentemente ótimo), um dos recém-chegados do hotel. Se não conseguir encontrar o amor, ele quer ser transformado numa lagosta. Por isso o título. Não se assuste com essa sinopse sem pé nem cabeça. O filme é divertidíssimo, tem um bom elenco e faz pensar (de forma bem ácida) sobre relacionamentos. Acho que se tornou minha distopia favorita.

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  • DEADPOOL (2016), DE TIM MILLER

O que falar de Deadpool que já não foi falado por tantas pessoas pela internet a fora? A história do golpista sacana que se apaixona por uma prostituta, recebe a notícia de que está com um câncer em fase terminal e realiza um tratamento que o deixa imortal é incrivelmente ágil, tanto suas cenas quanto seu texto. O texto é o que realmente faz falta se você piscar, um segundo de desatenção e você perde piadas hilárias com referências ao Hugh Jackman, Limp Bizkit, X-Men, Liam Neeson e mais uma enxurrada de outras, incluindo o próprio filme. Me surpreendeu o roteiro não-linear, que apresentou tanto uma história de origem quanto de vingança, uma grande sacada já que este poderia ser, tradicionalmente, material para dois filmes. Deadpool, personagem e longa, não estão preocupados em seguir a cartilha dos filmes de heróis que despencam a cada ano nos cinemas. O fato de estar completamente despreocupado em ser um herói e um grande filme do gênero foi o que fez dele um filme de herói memorável. Não faz meu estilo, meu gosto para filmes de super-herói é muito limitado, mas tenho que reconhecer o que este filme fez para a categoria. Cheguei até a torcer por ele na premiação.

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  • FLORENCE: QUEM É ESSA MULHER? (2016), DE STEPHEN FREARS

Assim como muitos momentos em Elle, Florence me fez dar gargalhadas. Também uma história real, o filme acompanha a vida da senhora que dá nome ao filme, uma herdeira que persegue a ideia de ser cantora de ópera. Mas que (vejam só) não canta exatamente tão bem assim. Na verdade, sua voz é estridente e a falta de talento é terrível, mas quem está a sua volta o tempo todo a bajula por conta do seu dinheiro, por ser ela um amor de pessoa e, vá lá, por ser muito esforçada. Meryl Streep como Florence parece ter sido a única e mais acertada escolha para o papel, extremamente viva e adorável. Mas quem dá o show mesmo é o Simon Helberg, o Howard de The Big Bang Theory (minha série preferida), que faz por merecer a indicação ao prêmio de Melhor Ator Coadjuvante. Sua reação como novo pianista ao ouvir a cantoria de Florence é impagável. Ideal para toda a família, o filme não se destaca nas indicações, mas é tão simpático e engraçado que vale a pena dar uma conferida.

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  • A QUALQUER CUSTO (2016), DE DAVID MACKENZIE

Um faroeste situado nos dias de hoje, A Qualquer Custo une nostalgia à simplicidade que se esperaria do roteiro de um filme protagonizado por autênticos cowboys do Texas. Depois da morte da mãe, dois irmãos começam a roubar pequenas quantias de bancos de cidadezinhas do Texas para pagar a hipoteca da fazenda em que moram. De um lado, os irmãos cúmplices, um ex-presidiário meio louco e um pai separado mais introspectivo, em busca de proteger a herança da família; de outro, o tradicional xerife prestes a se aposentar que pega seu último caso e seu ajudante índio (o que rende muitas, muitas piadas) em uma amizade bastante verdadeira. “O fim justifica os meios?”, é essa a pergunta que A Qualquer Custo nos faz. Esse prazer da dúvida e o contraponto das duas relações é o que de mais interessante o filme oferece. Além de uma cinematografia deslumbrante, com a câmera na altura dos olhos o que dá a impressão de estarmos nós mesmos naquela parte esquecida do Texas. Amei ver o Chris Pine em um personagem fora do que ele está acostumado a fazer, uma atuação sensacional.

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  • ANIMAIS NOTURNOS (2016), DE TOM FORD

Após sete anos de hiatus, o estilista Tom Ford dirigiu seu segundo longa com aclamação do público e da crítica. E com razão. Dividido em três linhas narrativas um tanto complexas, Animais Noturnos conta a história de Susan, uma negociante de arte, totalmente infeliz em sua vida pessoal, que recebe o manuscrito que dá nome ao filme dedicado a ela escrito por seu ex-marido, Edward. Nessa história, que é a segunda linha narrativa, um homem sai em uma viagem de carro com sua esposa e filha até que é abordado na estrada por uma gangue. Durante a leitura dessa história, Susan vislumbra flashbacks da vida com seu ex-marido antes de terem se separado, que é a terceira linha. Esse é um filme forte, ele não poupa o espectador de algumas cenas indigestas, mas ao mesmo tempo o gratifica com um excelente trabalho cinematográfico, tanto na sua estética quanto no seu conteúdo. A história encenada do livro é a que mais envolve, de uma agonia visceral, queria muito que fosse um livro de verdade. Senti a falta de uma indicação pelo desempenho do Jake Gyllenhal, ele está maravilhoso. Em termos de drama, meu favorito. Um filme complicado, mas surpreendente, com um final que me deixou apreensiva por uns dez minutos.

Crystal Ribeiro

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