Mansfield Park (1814), de Jane Austen

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Fanny Price, a protagonista de Mansfield Park (1814), me lembrou muito a Cinderela. Com poucos anos de idade ela saiu da casa de sua mãe para morar com os tios na grande mansão Mansfield, como um favor que eles decidiram fazer à mãe da menina, que tinha muito mais filhos e muito menos dinheiro que eles. Mas ainda que estivesse convivendo com gente de sua própria família, Fanny tinha sua inteligência e talento sempre subjugados, vivia de prestar favores a suas tias e se rendia a todos os caprichos dos primos. A todo momento ela era lembrada pela terrível Tia Norris que vivia ali apenas de favor e como devia tudo a seus tios que a salvaram da obscuridade.

É verdade que estando em Mansfield, Fanny recebeu todas as vantagens de uma boa educação, conforto e acesso a muitos privilégios que em outras condições jamais teria, mas nada justifica o quanto sua introspecção e timidez foram ainda mais intensificados pelas críticas e falta de incentivo que recebia. Não consegui não me lembrar da Cinderela enquanto acompanhava as aventuras de Fanny na mansão, pois, em certo momento do livro, assim como a Cinderela, ela teve o seu primeiro baile tão sonhado em que floresceu aos olhos de seus tios. Ela deixou de ser uma coadjuvante para ter a força para ser a protagonista de sua própria história, tomando todas as atitudes e decisões, que já eram dela, e conseguindo o respeito de todos.

Inclusive o meu. Assim como (quase) todas as protagonistas de Jane Austen, Fanny Price é dona de um caráter corretíssimo. Durante todo o livro ela se manteve firme em seus princípios enquanto eu morria de raiva por ela não ser mais flexível, impulsiva e menos desconfiada do caráter das pessoas a sua volta. No fim das contas, esse seu modo de agir me deu muitas lições através do livro, e aliás, quanto devo à Jane por lições aprendidas.

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Tive alguns autores que marcaram algumas fases da minha vida como Ziraldo quando eu era criança, Pedro Bandeira e Meg Cabot na pré-adolescência e então Jane Austen na adolescência e fase adulta. Crescer com os livros da Jane foi tão importante para mim quanto qualquer outro aprendizado que eu pude receber da minha família, dos meus amigos e das pessoas a minha volta. Por mais piegas que possa parecer, cada uma de suas protagonistas me inspirou a melhorar em algum aspecto. No caso da Fanny, essa retidão de caráter, o fato de se manter firme aos seus princípios e agir de acordo com eles o tempo todo foi o que mais me inspirou. Era duro reconhecer que, em certos momentos, ela estava certa, e enquanto eu teria aberto mão de algumas convicções para atender pedidos, eu sabia que Fanny é quem tinha razão.

Mas apesar de ter uma protagonista forte, o restante dos aspectos da obra Mansfield Park não são tão superiores quanto outros livros da autora. A obra é um tanto arrastada em seu começo só tomando um rumo mais animador e interessante lá bem depois da centésima página, que é quando realmente acontece alguma coisa na história. Por causa dessa vagarosidade e pelo jeito quieto de Fanny, a impressão que se tem é que ela só aparece depois de muito tempo que o livro começou, ficamos esperando que algum acontecimento traga ela para a história, o que demora muito a acontecer. É válido ressaltar que Mansfield é o livro mais comprido de Jane Austen, o que deixa ainda mais evidente o quanto boa parte das páginas poderiam ser retiradas para dinamizar um pouco mais a leitura.

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Fora essa observação, Mansfield Park tem todas as características mais que conhecidas dos livros da autora: uma protagonista forte, a crítica à sociedade elitista de sua época, personagens tóxicos por sua falta de caráter e um belo final feliz. Talvez a maior ousadia de Jane foi não desenvolver em Fanny um interesse amoroso explícito, o que acontece com todas as suas outras personagens. Senti muita falta disso, apesar de não ter me incomodado de todo com ela só compartilhando seus sentimentos lá no final do último capítulo.

Com a ingenuidade de Catherine Morland (A Abadia de Northanger), a introspecção e maturidade de Anne Elliot (Persuasão), a racionalidade de Eleanor Dashwood (Razão e Sensibilidade) e a força de caráter de Lizzie Bennet (Orgulho e Preconceito), Fanny Price é a protagonista que vale a leitura de Mansfield Park. Não que a crítica e a ironia mordaz de Jane Austen por si só não valham, mas é a construção da personagem que chama atenção na história. O livro pode não figurar entre o meu Top 5 da autora, mas faz um belo trabalho ao nos colocar mais uma vez na atmosfera de sonho e reconforto que abraçam os livros de Jane.

Crystal Ribeiro

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