Oscar 2017: Roteiro Original e Adaptado

Faltam duas semanas para a tão aguardada cerimônia de entrega do Oscar, o prêmio mais importante e glamouroso do cinema mundial. Para este ano, em vez de fazer um post único com meus palpites dos ganhadores, resolvi fazer uma série de posts (quatro no total) reunindo comentários e impressões das categorias principais, são elas as de Roteiro, Atores Principais e Coadjuvantes, Diretor e Filme. Os posts vão sair toda segunda e sexta. Para hoje, vamos começar falando um pouco sobre os roteiros, uma das minhas categorias favoritas.

o-lagosta
O Lagosta

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

Talvez o anúncio do vencedor de Melhor Roteiro Original no Oscar seja o momento que eu mais espero durante toda a noite. A impressão que eu tenho é que é daí que saem os filmes mais originais, diferentes e apaixonantes das premiações. É raro eu não desenvolver uma paixonite pelos indicados nessa categoria, que consagrou filmes que eu amo como Annie Hall, Beleza Americana, Brilhos Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, Pequena Miss Sunshine, Juno e Ela, só para citar alguns.

Esse ano os concorrentes são:

  • MIKE MILLS, POR 20TH CENTURY WOMEN
  • TAYLOR SHERIDAN, POR HELL OR HIGH WATER (A QUALQUER CUSTO)
  • DAMIEN CHAZELLE, POR LA LA LAND
  • EFTHIMIS FILLIPOU E IORGOS LANTHIMOS, POR O LAGOSTA
  • KENNETH LONERGAN, POR MANCHESTER BY THE SEA

Dos cinco, apenas não assisti 20th Century Woman, que ainda não saiu no Brasil. Se bem que se ele vencesse seria a maior zebra, já que é provavelmente o último favorito ao prêmio. Acredito que a expectativa está toda em cima de La La Land, também escrito por seu diretor que ganhou o Globo de Ouro de Melhor Roteiro. Realmente, a história de amor do casal de Los Angeles que enfrenta dificuldades em conciliar o romance e a carreira profissional é muito bonita, o filme é muito bem desenvolvido, constrói a personalidade dos dois e conduz a história de uma forma muito correta. Mas nessa categoria não passa disso.

O roteiro de La La Land não tem falhas, mas se comparado a outros da lista ele não tem nada de mais. É uma história bem contada, mas não tem a dose de originalidade e personalidade que o distingue de O Lagosta, por exemplo.

Aliás, este é o meu preferido e o que deveria ganhar o prêmio na minha opinião. O Lagosta (como eu já falei nesse post aqui) tem um roteiro tão diferente que chega a ser estranho, mas é de uma ironia e crítica ácida que não se vê por aí sempre. Mesmo que a história dê uma derrapada e fique um tanto devagar na segunda parte, ela recupera o ritmo e termina o filme em uma nota perfeita, com um final daqueles de deixar todo mundo louco para saber o que aconteceu. É esse tipo de filme que merece brilhar numa categoria como essa, por tanto, nada supera O Lagosta para mim.

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Manchester by The Sea

Se não fosse por ele, Manchester by The Sea e Hell or High Water seriam meus concorrentes favoritos. O primeiro conta de forma não-linear a história de um homem que precisa cuidar do sobrinho ao mesmo tempo em que tem que lidar com sentimentos como dor, culpa, perda da fé, auto-julgamento e tantas coisas que o fizeram se tornar uma pessoa fechada e sem perspectivas. O segundo (que também já falei nesse post) tenta fazer com que o espectador analise e julgue a história por dois pontos de vista sinceros e justos. Até onde os fins justificam os meios?

Ambos os roteiros dão vazão à diálogos simples e inteligentes ao mesmo tempo em que deixam que a própria imagem (direção, atuação, design de produção etc) fale por si, através de silêncios, olhares e gestos.

Minha torcida vai para O Lagosta, alternando com Manchester by The Sea, mas acho que La La Land é quem leva por seu favoritismo.

moonlight
Moonlight

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

É nessa categoria que a gente descobre que aquele filme que a gente tanto amou veio de um livro, uma peça e até de outro filme. É importante lembrar que o que conta em Roteiro Adaptado não é se ele foi fiel à obra de onde ele veio, mas se essa adaptação foi bem feita, afinal esse é só um termo para diferenciar os dois tipos de roteiro. Uma obra cinematográfica independe da obra a que descende e vice e versa.

Os roteiros que concorrem a Melhor Roteiro Adaptado são:

  • ERIC HEISSERER, POR A CHEGADA
  • LUKE DAVIS, POR LION
  • THEODORE MELFI E ALLISON SHROEDER, POR HIDDEN FIGURES (ESTRELAS ALÉM DO TEMPO)
  • BARRY JENKINS E TARELL ALVIN MCCRANEY, POR MOONLIGHT
  • AUGUST WILSON, POR FENCES (UM LIMITE ENTRE NÓS)

Tanto os roteiros de Moonlight quanto o de Fences foram adaptados de peças teatrais. Enquanto o primeiro faz uma adaptação mais cinematográfica e livre, usando de forma mais ampla os recursos visuais, o segundo é quase um teatro filmado, trabalhando muito mais o texto e a interação entre os personagens em um único espaço do que se preocupando em fugir dele.

São duas formas diferentes de adaptação, não dá para tirar mérito de uma ou outra por causa dessas divergências, mas pelo desenvolvimento dos personagens em cena acredito que Moonlight é o grande destaque da categoria.

Já os roteiros de Hidden Figures e Lion são adaptados de livros e ambos são bem tradicionais. Lion tem um sério problema de ritmo e quebra de tempo no meio do filme, ele fica bagunçado porque não consegue desenvolver bem os objetivos do seu protagonista, mas consegue se recuperar na parte final. Acho que o roteiro de Hidden Figures foi o que mais me incomodou, pois senti falta de um pouco mais de peso dramático na história. Infelizmente existem muitas passagens óbvias de racismo no longa que poderia ser demonstrado de forma bem mais sutil. É até possível relevar já que o longa é um pouco mais comercial, mas nessa categoria ele acaba correndo por fora.

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A Chegada

Em contrapartida, o roteiro de A Chegada é formidável. Seguindo uma linguista que recebe a missão de se comunicar com alienígenas até então passivos, o roteiro é adaptado do conto História da sua Vida, de Ted Chiang. Apesar de à primeira vista parecer um sci-fi tradicional, o roteiro recai seu foco na sua protagonista e em suas impressões a respeito dos acontecimentos, que a mudam de forma permanente. Não deve ser nada fácil transformar um conto em todo um filme e manter suas discussões e noções básicas.

O roteiro de A Chegada é bastante preciso e correto na hora de mostrar os avanços na comunicação entre humanos e alienígenas, dando pequenas pistas sobre o do que vai se tratar o grande desfecho. A sutileza no desenvolvimento do texto é algo surpreendente dentro dos filmes do gênero.

Por esses motivos, A Chegada foi o meu Roteiro Adaptado preferido (provavelmente será o vencedor), alternando com Moonlight. A zebra pode ser Lion, que levou ontem o BAFTA na categoria.

Crystal Ribeiro

3 comentários em “Oscar 2017: Roteiro Original e Adaptado

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