Um pouco sobre quarentena e o que tem sido essencial pra me manter sã

Não faz muito tempo eu escrevi um post aqui no blog sobre piloto automático. Naquela época eu estava um pouco (bastante) frustrada sobre como eu me propunha a fazer coisas que me ajudassem a ir um pouco mais além nos meus objetivos, mas desistia no meio delas e, no fim das contas, terminava fazendo apenas o básico. As coisas mudaram de uns meses pra cá, o mundo não é mais o mesmo e, definitivamente, nossas rotinas não são mais as mesmas. Estamos no nem-sei-mais-que-dia de quarentena, cada um passando pelos seus perrengues e posso dizer, com certeza, que me contradizer sobre aquilo que escrevi é o que mais vem me ajudando a lidar com esses dias incertos e vou te dizer como.

Não sei se rolou com você, mas me incomodou muito aquele momento inicial da quarentena quando só se falava em “tirar o melhor do nosso tempo livre”. Acredito que agora ainda se fale muito nisso, de fazer o máximo pra preencher o tempo com meia dúzia de cursos livres, receitas, atividades manuais, exercícios físicos, meditações, séries intermináveis e por aí vai. Tudo pra gente se manter no ritmo e não perder a cabeça. Mas se você é uma das pessoas que se sentiu culpado por rolar o feed do Instagram e ver quem você segue fazer mil coisas pra se organizar e manter uma rotina ativa dentro de casa enquanto que você mal conseguiu sair da primeira atividade do dia, toca aqui, você não tá sozinho. O pior erro que a gente cometeu nessa quarentena foi achar que tudo ia ser igual ao que sempre foi, mas não é.

Faz quase um ano que eu trabalho de home office com uma rotina até bem regrada que incluía uma pós-graduação Ead, aulas de yoga, alguns freelas fora de casa e, claro, uma vida social. Desde que tudo começou, meu dia a dia não sofreu tantas alterações assim, mas quando a grande maioria das pessoas passou a ficar mais em casa do que na rua (espero que você esteja nesse grupo) o mundo rapidamente inventou novos jeitos de fazer pressão sobre o modo como a gente vive. Assumindo que agora nós supostamente teríamos mais tempo livre, nossos momentos ociosos nunca foram condenados com tanta brutalidade. Mas o pior nem é isso. Ruim mesmo é ver que esse tempo de confinamento só fez com que enxergássemos e sentíssemos aqueles monstrinhos mentais com muito mais clareza e força. Não é à toa que quem sofre com depressão, ansiedade e síndrome do pânico, por exemplo, tá bem mais sensível agora.

Como é que a gente achou que ia continuar seguindo como se nada estivesse acontecendo quando é só ligar a TV pra assistir um monte de pessoas morrendo, perdendo seus empregos ou arriscando a saúde no momento em que precisam sair de casa pra trabalhar, tendo seus salários reduzidos ou nem pagos, vendo seus parentes doentes em leitos de hospital e evitando estar com quem se ama?

As coisas mudaram demais em pouquíssimo tempo, a gente não foi treinado pra lidar com um momento desses e é por isso que, quando olho pra minha rotina, pra tudo o que ela poderia ser por conta do “tempo extra”, mas às custas de uma realidade lá fora que, querendo ou não, me afeta, fico muito feliz por me comprometer (e conseguir cumprir) com o necessário. Eu poderia sair enchendo meu bullet journal (como eu já fiz) com milhões de atividades pra preencher os espaços entre aquelas que não posso deixar de lado de jeito nenhum, mas decidi parar. Do mesmo jeito que antes me frustrava me ver livre apenas aquilo que era prioridade, hoje, só o fato de conseguir cumprir o que não pode ficar pra depois me deixa satisfeita e me faz dormir em paz. O resto, vira lucro.

Isso, claro, não quer dizer que a rotina não possa mudar com o tempo. Conforme os dias forem passando e meu cérebro for aprendendo a se adaptar a essa nova realidade, é bem provável que eu me sinta pronta pra investir além, mas o que estou querendo dizer é que só o fato de conseguir me levantar, vestir uma roupa diferente, sentar em frente ao computador e terminar as tarefas que defini como essenciais já me traz uma sensação enorme de dever cumprido. A gente não tá no momento de se cobrar a fazer coisas que extrapolem o limite da nossa saúde mental, que vão pesar na nossa rotina, mesmo que elas tragam a mesma sensação depois de um tempo. Mais do que nunca, a gente tem que se respeitar e com isso eu falo de respeitar nosso momento, nossa realidade.

Tudo isso é autocuidado e talvez esse seja o melhor jeito de colocá-lo em prática hoje em dia. Espero que em algum momento a quarentena te faça repensar o lugar onde você coloca aquelas atividades que te trazem de volta pros eixos e te ajudam a seguir bem. Elas continuam sendo extras ou entram no seu pacote de essenciais? Que tal trocar aquele projeto novo que você pensou em iniciar, mas que ficou dias sem conseguir tirar do papel, pela leitura de algumas páginas de um livro ou dez minutinhos de uma meditação guiada ou meia hora escrevendo num diário? O que estou querendo não é que você desista de planos futuros, mas pense que, nesse momento, talvez seja mais vantajoso cuidar do seu “eu agora” pra que lá na frente ele esteja são pra colocar em prática todos eles.

Você já deve saber, mas é bom lembrar que o seu “pacote de essenciais” não precisa ser igual ao meu ou do seu amigo ou do seu primo, cada pessoa se contenta de um jeito muito pessoal. O meu, por exemplo, inclui alguma leitura, mesmo que de poucas páginas, uma prática de yoga no fim do dia (rápida ou longa, depende da minha disposição) e um filminho à noite, quando dá. Nada disso é regra, muito menos um tapa buraco, mas saídas pra se ter uma rotina mais saudável e livre da pressão que vem de fora.

A gente sabe bem que as coisas só parecem estar indo mais devagar e que a intenção mesmo era reproduzir a correria do dia dia entre quatro paredes. Mas no fundo, no fundo, o que salva é encontrar o ritmo que funciona pra gente e ser grato pelas pequenas conquistas. Se o macro de assusta, foca no micro e se conforta com ele. Um dia de cada vez, se você se cuidar e cuidar da sua comunidade, logo estaremos todos juntos, sem medo de ser feliz. No momento, se concentra no essencial pra ter a mente leve. E fique em casa.

2 comentários em “Um pouco sobre quarentena e o que tem sido essencial pra me manter sã

  1. Eu e seus avós, achamos maravilhoso suas indagações e sua forma de lidar com o momento e com toda essa turbulências. Denota uma maturidade e uma sensibilidade do conhecimento de si mesma. Parabéns filha!!! Continue assim…. Paz no seu ❤!!!

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