Diário de leitura – Machado de Assis: A Mão e a Luva (1874)

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Um dos projetos em que estou mais me empenhando em 2017 é o de ler mais. Depois de ter retomado (e muito) meu ritmo de leitura no fim do ano passado decidi que a coisa não podia parar, meu objetivo é estar sempre com um livro à mão, qualquer um, desde que fosse alguma coisa que deixasse meu dia mais colorido, animado, intelectual ou o que fosse. Afinal, consumir cultura é um dos principais objetivos da minha vida, não existe nada melhor do que viver constantemente aprendendo e se renovando de formas tão deliciosas quanto as que a cultura nos proporciona.

Então, depois de Mansfield Park e leves doses de José de Alencar, decidi parar de postergar a leitura da obra completa de Machado, já acumulando poeira na estante de tanto tempo que ela está comigo. Fora Memorial de Aires, sua última obra, tenho todos os romances do autor, além de um bom número de contos seus, que são maravilhas a parte. Foi através de Machado (como eu falei um pouco nesse post) que comecei a me interessar por um tipo mais “adulto” de literatura, seus livros me mostraram uma outra forma de escrita e de colocação de ideias que eu não estava acostumada a ler e pela qual eu me apaixonei.

Depois de Dom Casmurro, fiquei decidida a ter cada um de seus romances, mas desses li apenas os mais famosos: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e, claro, Dom Casmurro. Foi então que disse para mim mesma: “Desse ano não passa!”. Começa agora meu Diário de leitura de Machado de Assis, que é nada menos do que uma série de resenhas de seus livros a medida que eu os for lendo.

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Sim, comprei num sebo em 2012 e só li agora em 2017
Ao contrário do que eu achava, Machado nem sempre foi um autor realista. Aprendi nas aulas de literatura que antes de ser famoso pelo realismo elegante de suas obras, ele seguiu os passos de José de Alencar e escreveu quatro romances tidos como românticos, que era o movimento que estava em alta na época. O segundo deles, A Mão e a Luva, mais parece um conto do que um romance de tão curtinho que é. Uma historinha simples que dá para ler de uma tacada só, um autêntico exemplar da literatura romântica. No livro, a protagonista Guiomar se vê dividida entre a preferência de três homens completamente diferentes e dos quais precisa escolher um para se tornar seu marido.

O enredo não parece muito interessante à primeira vista e sinto informar que à segunda também não. A simplicidade narrativa do romance pode decepcionar bastante, já que ele não é bem um romance. O número de personagens e acontecimentos é bem limitado, a impressão que eu tive é de estar lendo um livro como A Moreninha, outra obra do romantismo, que é tão curto que parece se desenvolver em apenas um dia. Eu, que esperava um romance tradicional, me decepcionei bastante com o formato de A Mão e a Luva, que também não foi feliz no desenvolvimento da empatia por seus personagens.

Guiomar, não há dúvidas, é uma personagem bastante revolucionária para sua época. É uma protagonista que, apesar de ter o casamento como objetivo, não está disposta a aceitar uma história de amor tradicional, ela é ambiciosa e sabe bem o que quer. Embora as coisas aconteçam dessa forma, o que é um grande diferencial na narrativa de Machado em comparação com outros escritores da época, não bastou (pelo menos para mim) para desenvolver uma afinidade pela personagem. Mesmo que seus defeitos a façam mais real, não consegui gostar dela, sempre muito irritante e cheia de si. Estou até hoje tentando entender que encantos ela tem para ter atraído tanta gente.

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Seus pretendentes também não ficam muito atrás. Estevão, o romântico incorrigível, é tão cego de amor pela protagonista que não consegue entender o quão ridículo está parecendo. Jorge é outro vazio de empatia. Ele espera que o simples fato de ser sobrinho da baronesa que cria Guiomar o faça ser o escolhido. Além de ser um herdeiro preguiçoso, suas atitudes são extremamente covardes para ganhar a atenção de alguém. Luís Alves é o que ganha mais destaque entre os três. Sua personalidade se destaca por ser um meio termo entre o apaixonado e o sem interesse. Ele é perspicaz e ambicioso, o que o torna menos caricato do que seus concorrentes.

Como dá para ver, os tipos do romance são um tanto convencionais e a trama chega a ser bem previsível. Mas se tivesse que destacar qualidades em A Mão e a Luva, quais seriam elas?

Bom, para quem, assim como eu, se interessa em ler a obra completa de Machado, saiba que este romance conta mais como um estudo de autor do que como um entretenimento de verdade. Aqui o escritor está mais preocupado em fazer algo nos moldes do romantismo do que propriamente desenvolver uma trama interessante. Pelo menos essa é a impressão que ficou para mim. Definitivamente, a melhor coisa no livro é sua escrita. Mesmo em início de carreira e escrevendo um romance que não combina com a sua veia irônica, Machado consegue escrever com a leveza e destreza que facilmente se observa em seus livros mais aclamados. Existe aqui uma pitada de ironia e originalidade próprios do escritor, coisa que, mesmo estando lendo algo do romantismo, já torna a narrativa mais viva e interessante e muito menos melosa e “bonitinha”.

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Não dá para negar que o Machado romântico não chega aos pés do realista, apesar que, confesso, o suspensezinho que o escritor inseriu no fim da obra me pegou de surpresa e ganhou alguns pontos. Claro que se você gosta de autores brasileiros românticos como José de Alencar (Senhora, Iracema), Joaquim Manuel de Macedo (A Moreninha) e Bernardo Guimarães (A Escrava Isaura) pode facilmente se interessar por A Mão e a Luva. Eu, que sou eternamente devota ao realismo, não consigo achar muita graça em livros como esse. Mas no fim das contas, bom mesmo foi saber que, até romântico, ele consegue ser Machado de Assis.

Mansfield Park (1814), de Jane Austen

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Fanny Price, a protagonista de Mansfield Park (1814), me lembrou muito a Cinderela. Com poucos anos de idade ela saiu da casa de sua mãe para morar com os tios na grande mansão Mansfield, como um favor que eles decidiram fazer à mãe da menina, que tinha muito mais filhos e muito menos dinheiro que eles. Mas ainda que estivesse convivendo com gente de sua própria família, Fanny tinha sua inteligência e talento sempre subjugados, vivia de prestar favores a suas tias e se rendia a todos os caprichos dos primos. A todo momento ela era lembrada pela terrível Tia Norris que vivia ali apenas de favor e como devia tudo a seus tios que a salvaram da obscuridade.

É verdade que estando em Mansfield, Fanny recebeu todas as vantagens de uma boa educação, conforto e acesso a muitos privilégios que em outras condições jamais teria, mas nada justifica o quanto sua introspecção e timidez foram ainda mais intensificados pelas críticas e falta de incentivo que recebia. Não consegui não me lembrar da Cinderela enquanto acompanhava as aventuras de Fanny na mansão, pois, em certo momento do livro, assim como a Cinderela, ela teve o seu primeiro baile tão sonhado em que floresceu aos olhos de seus tios. Ela deixou de ser uma coadjuvante para ter a força para ser a protagonista de sua própria história, tomando todas as atitudes e decisões, que já eram dela, e conseguindo o respeito de todos.

Inclusive o meu. Assim como (quase) todas as protagonistas de Jane Austen, Fanny Price é dona de um caráter corretíssimo. Durante todo o livro ela se manteve firme em seus princípios enquanto eu morria de raiva por ela não ser mais flexível, impulsiva e menos desconfiada do caráter das pessoas a sua volta. No fim das contas, esse seu modo de agir me deu muitas lições através do livro, e aliás, quanto devo à Jane por lições aprendidas.

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Tive alguns autores que marcaram algumas fases da minha vida como Ziraldo quando eu era criança, Pedro Bandeira e Meg Cabot na pré-adolescência e então Jane Austen na adolescência e fase adulta. Crescer com os livros da Jane foi tão importante para mim quanto qualquer outro aprendizado que eu pude receber da minha família, dos meus amigos e das pessoas a minha volta. Por mais piegas que possa parecer, cada uma de suas protagonistas me inspirou a melhorar em algum aspecto. No caso da Fanny, essa retidão de caráter, o fato de se manter firme aos seus princípios e agir de acordo com eles o tempo todo foi o que mais me inspirou. Era duro reconhecer que, em certos momentos, ela estava certa, e enquanto eu teria aberto mão de algumas convicções para atender pedidos, eu sabia que Fanny é quem tinha razão.

Mas apesar de ter uma protagonista forte, o restante dos aspectos da obra Mansfield Park não são tão superiores quanto outros livros da autora. A obra é um tanto arrastada em seu começo só tomando um rumo mais animador e interessante lá bem depois da centésima página, que é quando realmente acontece alguma coisa na história. Por causa dessa vagarosidade e pelo jeito quieto de Fanny, a impressão que se tem é que ela só aparece depois de muito tempo que o livro começou, ficamos esperando que algum acontecimento traga ela para a história, o que demora muito a acontecer. É válido ressaltar que Mansfield é o livro mais comprido de Jane Austen, o que deixa ainda mais evidente o quanto boa parte das páginas poderiam ser retiradas para dinamizar um pouco mais a leitura.

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Fora essa observação, Mansfield Park tem todas as características mais que conhecidas dos livros da autora: uma protagonista forte, a crítica à sociedade elitista de sua época, personagens tóxicos por sua falta de caráter e um belo final feliz. Talvez a maior ousadia de Jane foi não desenvolver em Fanny um interesse amoroso explícito, o que acontece com todas as suas outras personagens. Senti muita falta disso, apesar de não ter me incomodado de todo com ela só compartilhando seus sentimentos lá no final do último capítulo.

Com a ingenuidade de Catherine Morland (A Abadia de Northanger), a introspecção e maturidade de Anne Elliot (Persuasão), a racionalidade de Eleanor Dashwood (Razão e Sensibilidade) e a força de caráter de Lizzie Bennet (Orgulho e Preconceito), Fanny Price é a protagonista que vale a leitura de Mansfield Park. Não que a crítica e a ironia mordaz de Jane Austen por si só não valham, mas é a construção da personagem que chama atenção na história. O livro pode não figurar entre o meu Top 5 da autora, mas faz um belo trabalho ao nos colocar mais uma vez na atmosfera de sonho e reconforto que abraçam os livros de Jane.

Crystal Ribeiro

Resenha: ‘Não Me Abandone Jamais’ (2005), de Kazuo Ishiguro

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O livro Não Me Abandone Jamais (2005) tem um título infeliz, sobretudo aqui no Brasil. É muito ruim lembrar da música de Tim Maia toda vez que se lê o nome na capa, mas não porque a música seja ruim e sim porque é irritante mesmo. Enquanto se carrega o livro para lá e para cá as piadinhas são infinitas. O pior é que, literalmente, esse é o nome dele. O Never Let Me Go vem de uma música muito bonita que a protagonista gosta de ouvir, da cantora Judy Bridgewater, que existe de verdade. O problema é que a primeira vista ele dá a impressão de ser uma história de amor piegas e cheia de açúcar, o que de modo algum é verdade. A música e o seu significado têm uma grande importância na história e até traduz o sentimento e a mensagem do livro, mas não eu fui a única que o leu e preferiu que os mal entendidos não existissem, já que eles desviam a seriedade da história.

Mas indo direto ao ponto, Kazuo Ishiguro fez um trabalho impressionante aqui. O autor coloca seus leitores na pele dos personagens principais que, por mais humanos que sejam não são iguais a nós. Eles pensam e agem diferente, suas relações e modos de ver o mundo são diferentes dos nossos porque a criação deles foi diferente da nossa. Mas porque tudo isso acontece? Se eles são seres humanos, o que os diferencia de nós? Esse clima de mistério está presente durante toda a leitura de Não Me Abandone, mesmo que nem tudo seja mistério. Não é impressionante um escritor conseguir manter o suspense na história mesmo que todas as surpresas do enredo já sejam entregues na sinopse do livro? O que Ishiguro quis fazer aqui não foi lançar revelações bombásticas, mas fazer o leitor meditar sobre elas, como elas agem na vidas dos personagens e como ele próprio jamais vai entender as ações que resultam delas porque simplesmente ele não é como os personagens. E isso às vezes se torna sufocante.

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O livro é narrado por Kathy H., que através de suas memórias relembra como ela, Ruth e Tommy cresceram no orfanato Hailsham, na Inglaterra. De forma não linear, como num fluxo de pensamento, ela conta sua infância no orfanato, a adolescência nos Chalés, e quando, já adulta, se torna uma cuidadora. Mas Hailsham não é um orfanato tradicional, não existem pais que adotam as crianças. Lá são criados clones que recebem toda a educação e cuidado possível para que quando cheguem a determinada idade eles possam doar seus órgãos vitais para pacientes em estado terminal. Este é um avanço da ciência que não é datado no livro, ele não deixa claro em que época os personagens estão vivendo, sabemos apenas que este tipo de experiência não é recente.

Kazuo não dá essa notícia logo de cara, ele vai soltando informações pela história aos poucos para que o leitor vá desvendando com calma o destino dos personagens. Pode parecer loucura olhando de fora, mas funciona muito bem justamente porque o foco não são os acontecimentos, mas a reflexão sobre a vida das crianças Hailsham. A escrita de Kazuo é bastante simples e fluida, como se Kathy estivesse nos contando a história ao vivo realmente. No meio de uma lembrança ela se recorda de outra, conta esta segunda para voltar para a primeira, mas sem que isso se torne confuso. Se pudesse definir tanto a escrita quanto os personagens de Kazuo diria “puro”, foi essa a maior sensação que tive. A pureza do relato de Kathy é ao mesmo tempo singela e revoltante. Seus personagens estão envoltos em uma estranha áurea de sonho. Infelizmente, é difícil explicar Não Me Abandone.

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Kathy é uma menina inteligente, amigável e gentil. Ela é a melhor amiga de Ruth, que é extrovertida e geniosa. Apesar de próximas, as duas são extremamente opostas: enquanto Kathy chega a ser passiva, Ruth está sempre tentando conseguir o quer, mesmo que para isso precise passar por cima de alguém. Não chega a ser uma relação de amor e ódio no começo, mas chega um ponto em que o leitor não aguenta mais ver Kathy engolindo as provocações de Ruth, que mesmo amiga dela, não mede esforços para parecer mais esperta e madura que Kathy. Tommy é o contraponto entre as duas, fica no meio entre suas personalidades. Apesar de seus ataques de fúria por ser zoado pelos alunos, ele tem um grande coração e começou uma amizade com Kathy quando ninguém mais queria ser seu amigo. Os três vão crescer e descobrir o mundo juntos durante a época em que as doações não começam, os sentimentos são muitos, as confusões também, e é esse relacionamento que vai ser a linha condutora da história, que vai dá vida e espaço às reflexões.

Os três, assim como todos os alunos de Hailsham, sabem o que os espera, mesmo que ninguém tenha falado diretamente. As lições que recebem são as mesmas de qualquer criança comum, mas a estranheza do leitor em relação ao modo como eles vivem por justamente terem sido educados para não viver presos ao mundo é a coisa mais perturbadora do livro de Kazuo. Fora do mundo de Hailsham, tudo para eles é uma novidade interessantíssima: as doações de brinquedos e objetos velhos que recebem, trabalhar em escritórios ou como motoristas, fazer a escolha do que comer no cardápio de uma lanchonete. É possível ligar esse comportamento deles a um estado “primitivo” de sentir a vida, vendo e admirando as coisas por seu propósito inicial, sem floreios. Atividades tão banais e cotidianas são elevadas a um nível tão alto de interesse que nos faz questionar: será que só o que é grandioso nos impressiona? Perdemos a capacidade de admirar as pequenas coisas?

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O autor gosta de brincar com seu público, nos faz refletir sobre nossos próprios atos a partir da experiência de seus personagens. Mas se Kathy, Tommy e Ruth sabem o que os acontecerá no futuro, porque eles não se rebelam? Porque deixam o controle de suas vidas nas mãos de outras pessoas? É perturbador porque a educação deles foi essa, não podemos compreender, mas eles cresceram com esse propósito do qual não podem fugir. E eles estão perfeitamente bem desse jeito, não querem que seja de outra forma. Sabendo que a vida tem um fim próximo o esperado seria que eles decidissem viver o mais intensamente, aproveitando tudo da melhor forma possível. Mas dentro daquele mundo, alienado de certa forma, eles são perfeitamente felizes, vivem com seus próprios interesses, amores e desavenças como se tivessem todo o tempo do mundo. Uma atitude certamente muito diferente de nós que esperamos ter muito tempo ainda pela frente.

Com Não Me Abandone Jamais, Kazuo Ishiguro apresenta um livro simplíssimo à primeira vista, mas que, depois de algumas reflexões, percebemos que tem muito mais a dizer do que se poderia imaginar. Fazer brotar um sentimento de estranheza de coisas tão simples que o ser humano acaba complicando e colocar em discussão conceitos que já nos são tão naturais são as grandes virtudes do livro, uma obra completamente diferente de tudo o que você vai ler. É por meio de sutilezas que Kazuo nos apresenta a vida em Hailsham e como seus alunos lidam com futuro, amizade, sexo e esperança. Não de uma forma que agrada a todos, mas aqueles que gostam de boas reflexões e de uma ficção científica bem diferente vão se fascinar pelas descobertas das crianças Hailsham.

Crystal Ribeiro